Apontamentos & desapontamentos: A «operação Papagaio» – os surrealistas em armas contra a ditadura

Colocado por XXX Carlos Loures XXX em 24 de Agosto de 2009


Foi, salvo erro, em 1962. Eu estava a trabalhar e a viver em Vila Real e soube da prisão de numerosos amigos escritores, companheiros do café Gelo na sua maior parte. Em Agosto tive as habituais férias. Passava-as com a família numa casita perto da Caparica. Não tinha carro (nem havia ainda a ponte) e uma manhã em que fora a Lisboa tratar de qualquer assunto, no regresso encontrei o Virgílio Martinho (1928-1994), o autor de «O Grande Cidadão», que morava em Almada ou nos subúrbios. Fizemos juntos a travessia no «cacilheiro». Como disse, soubera que ele, o Forte e mais uns «manos» tinham estado presos, mas não conhecia os pormenores. Foi ele que pela primeira vez me descreveu no que consistira a «Operação Papagaio», nome de código para uma tentativa de derrube da ditadura, feita por gente do chamado grupo do Gelo – ele, o António José Forte (1931-1988), o Renato Ribeiro, o Manuel de Castro (1935-1971) e o Mário Henrique-Leiria (1923-1980), que não pertencia ao grupo, mas era grande amigo de alguns dos seus elementos, como era o caso do Forte. Além disso, o Mário era «entendido em armas», (fosse lá o que fosse que isso queria dizer). O Forte e o Manuel eram o mais civis que é possível. O Renato percebia alguma coisa do assunto, pois fora durante a 2ª Guerra oficial miliciano nos Açores, tenente, salvo erro, servindo na arma de Artilharia, mas degradado em Tribunal Militar a soldado raso devido a uma história rocambolesca ocorrida em São Miguel, em que ele teria protegido um soldado da sua bateria envolvido num crime de morte. Contava-se também que, antes de ser castigado, fizera fogo com uma anti-aérea sobre um avião norte-americano. Dessa vez não foi castigado porque, estando a comandar a bateria, tinha ordem para atirar sobre todos os aviões não-identificados, o que era o caso, embora essa ordem fosse letra morta. Contavam-se muitas histórias do Renato, poeta de um só livro («Sombras»), colaborador da Pirâmide e autor de um grande romance cujo original ele terá perdido. Casado com a Fernanda, professora da Faculdade de Letras de Lisboa. Sei que ela já morreu. Uma figura mítica, o Renato Ribeiro (o meu filho chama-se Renato em homenagem a ele). Perdi-lhe completamente o rasto, nem sei se ainda é vivo. Oxalá seja. Adiante.
No seu livro «Prazo de Validade» (1998), Luiz Pacheco narra uma versão da história que não coincide totalmente com a que o Virgílio me contou. Mas o Pacheco não esteve envolvido na operação. Mais coincidente é a que Fernando Correia da Silva conta na sua biografia de Mário-Henrique Leiria (1923-1980), pois talvez a tenha ouvido do próprio Mário (que esteve comigo no PRP, mas que nunca me falou no assunto), embora divirja num aspecto essencial – dá a operação como realizada o que comprovadamente é um equívoco (talvez da memória do Fernando) – a operação abortou – aí o que o Martinho me contou e o que Pacheco diz no seu livro coincide totalmente. Vamos lá então tentar uma quarta versão, subsidiária das outras três. Porque, tendo sido colega do Forte na Fundação Gulbenkian (de onde saí em 1971), demo-nos até à sua morte, em 1988, almoçando juntos em regra uma vez por mês, além de vários passeios de fins-de-semana que demos juntos, eu, ele, a minha mulher e a sua, a artista plástica Aldina. Mas o Forte não gostava de falar neste assunto e dele pouco consegui tirar.
Na Primavera de 1962, já tinha começado no ano anterior a Guerra Colonial, um grupo de escritores, surrealistas na sua maior parte, do qual faziam parte pelo menos aqueles que já citei, gizou um plano simples, mas que parecia eficaz. Com a casa do Mário-Henrique a servir de base de apoio, pois tinha uma moradia no largo principal de Carcavelos, junto da igreja e do Café São Jorge, transportando-se em dois carros (não sei de quem, pois nenhum dos citados tinha automóvel), cerca das dez da noite, atacariam o Rádio Clube Português na Parede. Dispunham de informações dadas do interior (o Pacheco sugere que seria o Luís Filipe Costa), na altura locutor daquela estação emissora.
Sabia-se que àquela hora era posta a rodar uma bobina com um extenso programa do Igrejas Caeiro, «Os Companheiros da Alegria», e que até cerca da meia-noite só haveria um contínuo na estação, pois inclusivamente os intervalos para os blocos publicitários estavam gravados nessa bobina. A ideia era entrar, prender e amarrar o homem e pôr a rodar outra bobina que arrancava com o hino nacional e depois com uma voz grave que dizia, mais ou menos: «Interrompemos o nosso programa, para informar que se verificou um levantamento de tropas, havendo neste momento diversas unidades militares a caminho de Lisboa. Pedimos calma à população…, etc, etc. Marchas militares e, passados minutos, novo comunicado. Os comunicados seriam cada vez mais alarmistas, pedindo-se num dos últimos à população para se reunir no Rossio para saudar o advento da democracia, pois Salazar fora apeado e preso, dizia o «locutor». Claro, que podia acontecer que alertadas as autoridades, a estação fosse ocupada e a bobina revolucionária fosse retirada antes de chegar ao fim.
No fundo, o plano baseava-se na mesma ideia que Orson Welles, tivera com «A Guerra dos Mundos», em 1938, provocando o pânico nos ouvintes, que acreditaram que a Terra estava a ser invadida por marcianos. Neste caso, os marcianos eram as tais unidades que do Norte vinham sobre Lisboa, com a adesão maciça e crescente das unidades locais.
Quando à hora marcada os conspiradores chegaram junto dos portões da estação, tiveram uma desagradável surpresa – no ringue estava a disputar-se uma partida de hóquei em patins, com muita gente a assistir e polícia de serviço para manter a ordem. O RCP tinha instalações desportivas onde se disputavam provas nacionais – de hóquei, basquete, andebol, ginástica, etc.
Balbúrdia dentro dos carros, uns queriam avançar mesmo naquelas condições, mas a maioria decidiu sensatamente adiar o ataque para a semana seguinte, quando novamente estivesse a ser emitido o programa do Igrejas Caeiro.
Só que nos cafés onde paravam, nomeadamente o Café Royal do Cais do Sodré, o Gelo do Rossio e a Brasileira do Chiado, a «Operação Papagaio» era, desde há semanas, discutida e comentada de mesa para mesa como coisa trivial. Sobretudo na Brasileira, a dois passos da PIDE, paravam muitos agentes. Resumindo: os guerrilheiros surrealistas foram todos dentro. A polícia achou graça à ideia, nunca tinham por ali passado políticos como aqueles, poetas meio malucos que davam respostas inusitadas e transformavam os sinistros autos de perguntas numa espécie de «cadavre-exquis». Durante os interrogatórios, aconteceu por diversas vezes os agentes saírem dos «gabinetes de investigação» e virem rir às gargalhadas para o corredor. Não houve torturas. Não se formou processo. Umas chapadas, umas ameaças, e ficaram por ali. Tendo apanhado as armas que o Mário com tanto trabalho arranjara, a PIDE foi-os soltando. A «Operação Papagaio» fracassara. Como tantas outras que não foram conduzidas por poetas… Cerca de dez anos depois, em Setembro de 1972, as forças armadas brasileiras, nomeadamente os fuzileiros, desencadearam uma grande operação contra os guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil que estavam acoitados numa região a Norte de Goiás. Chamaram-lhe «Operação Papagaio»: Mas, embora com o mesmo nome de código, não teve graça nenhuma esta operação. As forças da ditadura dos coronéis mataram diversos guerrilheiros comunistas e feriram muitos outros durante a investida.

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  1. #1 por Clube dos Poetas Imortais: António José Forte (1931-1988) | em 27 de Agosto de 2009 - 17:02

    [...] cedo demais. Foi o caso do poeta surrealista António José Forte, um dos participantes na «Operação Papagaio», meu querido companheiro do Café Gelo, da revista Pirâmide, meu colega na Fundação Calouste [...]

(não será publicado)