O Gharb Al-Andalus

Colocado por Frederico Mendes Paula em 14 de Janeiro de 2010


Poucas pessoas conhecem a história de Portugal entre os anos de 711 e 1246. Fomos habituados a renegar o nosso passado Árabe, a acreditar que isto já era “nosso” antes da sua chegada e que reconquistámos a nossa terra em meados do século XIII.

Felizmente que hoje existe uma visão completamente diferente que se orgulha do legado Árabe na nossa cultura e nos nossos genes.

Este artigo pretende, de uma forma resumida, dar a conhecer aos leitores os principais acontecimentos ocorridos nesse período e alguns personagens, nossos antepassados, que os protagonizaram.

No início do séc. VIII a Península Ibérica encontrava-se numa situação catastrófica em termos de vazio de poder e pobreza, levando os seus habitantes a pedir ajuda ao então recém-chegado ao Norte de África, Governador do Magrebe, um Sírio de nome Mussa Ben Nossair.

No ano de 710 Mussa ordena a um berbere chamado Tarif Ben Shamaun que faça uma incursão de reconhecimento e em 711 dá-se a primeira invasão, comandada por um outro berbere chamado Tarik Ibn Zyad, que deixa o seu nome no célebre rochedo de Gibraltar (do Árabe Gibraltar = Jebel Tarik, ou a montanha de Tarik).

A conquista, se lhe podemos assim chamar, dá-se de forma extremamente rápida pelo facto de se efectuar através de uma política de alianças e de respeito pelos direitos cívicos e políticos das populações, culminando com a conquista de Toledo, a capital dos Visigodos.

No ano seguinte Mussa Ben Nossair comanda a segunda invasão, liderando exércitos maioritariamente Árabes, e conquista Sevilha, dirigindo-se depois para Norte ao encontro de Tarik.

Em Sevilha encarrega o seu filho Abdelaziz Ben Mussa de conquistar o Gharb Al-Andalus (Ocidente do Andalus) ou simplesmente AL-Gharb (O Ocidente).

A conquista dá-se nos anos seguintes, ficando o território actualmente ocupado pelo Sul de Portugal sob o comando de Árabes do Yemen, liderados por Abu Sabbah Al-Yamani.

Refira-se que a estrutura dos exércitos muçulmanos era muito semelhante àquela que hoje utiliza a NATO _ contigentes de vários países, com os seus comandos próprios, sujeitos a um comando unificado.

Estes contigentes não só desencadeavam as acções militares, como ficavam encarregues da governação dos territórios que conquistavam.

Como veremos adiante, este facto será determinante para futuras aspirações de auto-determinação e independências de algumas regiões.

Entretanto dá-se no Médio Oriente um acontecimento que irá marcar o futuro do Al-Andalus _ os Abássidas de Bagdade destronam os Omíadas de Damasco e transferem o poder do califado para a sua cidade, chacinando grande parte dos seus oponentes.

Um dos sobreviventes desse massacre, que ficou conhecido como o “massacre de Abu Futrus” é um príncipe chamado Abd Ar-Rahman, que foge para Marrocos e mais tarde invade a Península Ibérica, unificando-a sob o poder do Emirato de Córdoba.

Inicia-se então um período de revoltas pela auto-determinação, protagonizadas pelos Yemenitas de Silves, os governantes de Beja, Ibn Maruane “o galego” e os berberes da tribo Beni Maimune.

Todas estas revoltas são esmagadas pelo Emir de Córdoba.

Passado um período inicial de mera ocupação, começam a afluir ao Andalus inúmeras famílias Norte Africanas que se cruzam com os Hispano-Godos e Hispano-Romanos, criando uma sociedade multi-racial e multi-cultural, na qual reina a tolerância religiosa, dispondo a comunidade cristã dos seus locais de culto e fazendo-se representar nos concílios pelos seus bispos.

Uma das comunidades que maior peso tem na região do actual Algarve são os Mawla ou Muladis, antigos cristãos convertidos ao Islão, que lideram nos finais do século IX uma importante revolta a partir da Cidade de Xanta Marya Al-Gharb (Santa Maria do Ocidente, mais tarde Faro) que vai manter-se independente por um período de 50 anos.

No ano de 929 o Emir Abd Ar-Rahman III põe fim à revolta e toma o título de Califa (Príncipe dos Crentes), fundando o Califado Omíada de Córdoba.

Enquanto que o Emirato era um território apenas politicamente independente, o Califado alia ao poder político o poder religioso.

Até ao ano de 1031 o Califado de Córdoba domina o Al-Andalus, tendo como expoente máximo do seu poder territorial o reinado de Ibn Abu Amir, o célebre Almançor (Al-Mansur, o vitorioso), hajibe ou primeiro ministro do Califa Hixame III que empreende acções militares de grande envergadura, como os ataques a Santiago de Compostela e Barcelona.

A queda do Califado de Córdoba fracciona o Al-Andalus em pequenos reinos independentes, chamados Reinos de Taifas (Muluk At-Tawaif ou reinos fraccionados).

É deste período o reinado de Al-Mu’tamid Ibn Abbad em Silves, que ficou conhecido como o rei-poeta, e que estabeleceu na sua cidade um verdadeiro ambiente de corte, desenvolvendo as artes e letras, tornando Silves num centro de cultura do Andalus onde afluíram inúmeros artistas e pensadores do mundo islâmico.

As investidas de Afonso VI fazem-no pedir ajuda a Yussuf Ibn Tachfin, chefe dos Almorávidas, dinastia berbere acabada de se implantar em Marrocos, os quais invadem a Península e impõem um novo poder centralizado com capital em Sevilha.

Desterrado para Aghmat, junto a Marrakeche, Al-Mu’tamid acaba por morrer no exílio chorando a sua Silves _ “Saúda por mim Abu Bakr os queridos lugares de Silves e diz-me se deles a saudade é tão grande quanto a minha.”

A poesia Luso-Arabe de Al-Mu’tamid, de Ibn ‘Amar e outros será objecto de um artigo específico neste blog.

Dizia Yussuf Ibn Tachfin após a tomada de Sevilha _ “Por muito pouco que eu viva saberei devolver aos muçulmanos todas as províncias que lhes tomaram os cristãos durante este período calamitoso. Para combater os nossos inimigos enchê-las-ei de cavaleiros e de peões que ignoram o repouso, que não sabem o que é viver na moleza, que não sonham senão em domar e treinar os seus cavalos, em cuidar das suas armas e em precipitar-se para o combate à primeira ordem.”

No entanto inicia-se um período de derrotas islâmicas no Alentejo, com a queda de várias cidades tomadas pelo mercenário Geraldo “o sem pavor”.

A derrota na batalha de Ourique frente às tropas do borgonhês Ibn Arrik (Afonso Henriques) marca o declínio da dinastia Almorávida e o aparecimento de outra dinastia berbere, ainda mais aguerrida, os Almóadas.

A degladiação destas duas dinastias abre caminho ao aparecimento dos segundos Reinos de Taifas, marcados no Algarve pelo governo de Ahmad Ibn Qassi, líder do movimento Muridine na taifa de Silves.

Ibn Qassi foi um defensor da Filosofia Sufi no Gharb Al-Andalus, do misticismo islâmico, do Islão iniciático, e será merecedor também de um texto específico neste blog, até pela ligação que teve com os templários, concretamente com Ibn Arrik, Rei de Bortuqal.

O ano de 1190 marca a conquista definitiva do território pelos Almóadas, resistindo a Cidade de Tavira, onde se implanta uma comuna atacada dia noite pelas tropas berberes acampadas em Cacela.

No final do período Almóada dá-se novo fraccionamento em Reinos de Taifas, já incapazes de suster as ofensivas cristãs.

A conquista do Gharb Al-Andalus concretiza-se por mão de D. Afonso III e D. Paio Peres Correia, terminando no ano de 1246 com a queda de Aljezur.

Mas o legado ficou na nossa cultura e genes, como afirmou o Dr. António Borges Coelho _ “…milhares e milhares de berberes, de árabes, de maulas e de moçárabes ficaram definitivamente presos no corpo social que é o nosso, navegam no nosso sangue.”

Relacionados... ou não:

  1. Sufismo no Gharb Al-Andalus
  2. Poesia Luso-Árabe
  3. Os Berberes
  4. A máquina do tempo: o nosso coração também é árabe

849 Leituras

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  1. #1 por Amadeu em 17 de Janeiro de 2010 - 23:49

    O amigo António é um cromo. O que eu me rio com os seus comentários. Só me fazem lembrar o Diácono Remédios. Liberte-se dessas coisas. Se ajudar, imagine-se no paraíso com 30 virgens, encomende uma dançazita do ventre ao domicílio, fume qualquer coisa de Marrocos.

    Vai ver que não perde nada de si mesmo

  2. #2 por Fernando Moreira de Sá em 18 de Janeiro de 2010 - 0:01

    Uma entrada de Dragão! Nunca vi um primeiro post de um autor do Aventar arrancar logo com tantos comentários!!!

    Parabéns!

  3. #3 por Frederico Mendes Paula em 18 de Janeiro de 2010 - 0:18

    Tolerância não é admitir mais aceitar os outros como são. E eu aceito o António como ele é, apesar de ser pobre de espírito, ignorante e pouco inteligente. Foi Deus que o criou e não me cabe a mim julgá-lo. Só não aceitarei comentários como os de ontem, que apaguei, em que o António perdeu a noção da realidade _ obsceno, raivoso e fora de si.

  4. #4 por Luís Moreira em 18 de Janeiro de 2010 - 0:36

    É óbvio tudo tem um limite, e a decência é um deles!

  5. #5 por ahmed em 27 de Janeiro de 2010 - 0:32

    #3 por ahmed em 26 de Janeiro de 2010 – 17:53

    boa tarde amigos, amanhã 27/1é o dia do memória«shoah» é que esperamos que não se repita.eu tenho uma pergunta..é se alguém si interssa cordialment pode-nos a dizer quantos eram os judeus na toda europa antes da segunda guerra mundial.é só para a história..obrigado

  6. #6 por Amadeu em 27 de Janeiro de 2010 - 0:42

    No Holocauto Nazi morreram 17 milhões de soviéticos (sendo que 9,5 milhões de civis); 6 milhões de judeus; 5,5 milhões de alemães (3 milhões de civis); 4 milhões de poloneses (3 milhões de civis); 2 milhões de chineses; 1,6 milhão de iugoslavos; 1,5 milhão de japoneses; 535 000 (330 000 civis) de franceses; 450 000 (150 000 civis) de italianos; 396 000 de ingleses, e 292 000 soldados norte-americanos.
    (fonte : wikipedia )

  7. #7 por João José Cardoso em 27 de Janeiro de 2010 - 1:24

    No Holocausto nazi só morreram judeus. Os números que refere são os de vítimas da II Guerra Mundial.
    Holocausto é uma expressão judaica, e refere-se ao seu povo.
    Quantos judeus viviam na Europa e quantos morreram não se sabe com exactidão. Sabe-se que morreram mais do que deviam ter morrido, porque um bastava para terem morrido demais.
    Mas é sabido que proporcionalmente morreram mais ciganos que judeus. Sucede é que os ciganos não têm poder económico para produzir televisão (a expressão Holocausto só pegou depois de uma série com o mesmo nome).

    Amadeu :

    No Holocauto Nazi morreram 17 milhões de soviéticos (sendo que 9,5 milhões de civis); 6 milhões de judeus; 5,5 milhões de alemães (3 milhões de civis); 4 milhões de poloneses (3 milhões de civis); 2 milhões de chineses; 1,6 milhão de iugoslavos; 1,5 milhão de japoneses; 535 000 (330 000 civis) de franceses; 450 000 (150 000 civis) de italianos; 396 000 de ingleses, e 292 000 soldados norte-americanos.
    (fonte : wikipedia )

  8. #8 por Amadeu em 27 de Janeiro de 2010 - 1:41

  9. #10 por Amadeu em 27 de Janeiro de 2010 - 13:22

  10. #11 por ahmed em 27 de Janeiro de 2010 - 17:39

    muito obrigado sr.Amadeu e ao sr.J.J.Cardoso.
    é que no jornal italiano «c.della sera» um bispo polonês questionou sobre o numero dos judeus mortos no holocaust,e este foi considrado do jornal como um escândalo!
    «um bastava para terem morridos demais» é uma frase que se aplica um grande valor..obrigado

  11. #12 por Frederico Mendes Paula em 27 de Janeiro de 2010 - 20:13

    O João José tocou num ponto fundamental _ a importância do poder económico, e consequente controlo dos média, na formação da opinião pública. De facto quando se fala em nazismo fala-se em judeus. Não se fala em ciganos ou outras raças perseguidas, nem em oposição política ao nazismo.

  12. #13 por ahmed em 8 de Fevereiro de 2010 - 0:34

    que ama Israel deve deixar de apoiar a occupáçao dos terretorios arabos em qualquer forma.
    O silencio mata a vitima dois vezes.«viva GAZA»
    temos que lutar contra o inimigo certo.
    O verdadeiro anti-semita é o que fecha os olhos ou fica em silencio e continuar apoiar todo que faz o governo la .. si sabe que estamos viver ha mais de 60 anos «a mea culpa» do tempo do nazismo mas não podemos corrigir um erro com outro erro!
    resolver o problema arabo-israel faz desaparecer muitas problemas neste mundo automaticament!

(não será publicado)