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	<title>Aventar &#187; Raul Iturra</title>
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	<description>Expor ao vento. Arejar. Segurar pelas ventas. Farejar, pressentir, suspeitar. Chegar.</description>
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		<title>os filhos e as suas mães</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 17:40:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estou agradecido da tua mãe. Empenha-se em trabalhar, sabe rir no minuto certo, mas ai! se fazemos birra: as birras não podem ser aceites, ensina arrogância. Arrogância, dirás? O que é isso? É pensar que somos melhor que os outros.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 391px"><img src="http://api.ning.com/files/x7p0yuCwu9txYK3CeI4fZttE6hHR1YlwC8*pqZivu7N5TXzzRZjVHObOjOWiUBs9-JKQf9eF*EDiecPoMUNiqVog8n2JjCzW/untitled.bmp" alt="" width="381" height="305" /><p class="wp-caption-text">...tempos em que o Manuel era bebé...com a sua mãe a acaricia-lo</p></div>
<p><strong>…</strong>para Manuel Melo…</p>
<p>Deve ser a primeira vez que falo contigo. Deve ser a primeira vez que me endereço a ti. Nunca nos temos visto, jamais olhado uma foto tua. Mas atrevo-me a endereçar-te estas palavras. A ti, enquanto penso na tua mãe. Bem sei que já és quase um menino que oferece presentes à mamã. Tomas conta dela, te enterneces quando a vês aparecer, como eu próprio, avô como sou agora, gritava de alegria quando estava coma mãe que me dera a vida</p>
<p>Não há ternura maior, que dar a vida a outro, cria-lo, amamenta-lo, lutar para ser ela quem trate de ti.</p>
<p>Bem sabes que nem sempre pode estar contigo, mas faz todos os esforços possíveis para sair cedo de casa e tornar cedo e estar contigo. Cansada do trabalho, acaba por se encostar um pouco em casa para ouvir-te, tratar dos teus trabalhos, ou brincar comigo.</p>
<p>Penso que a tua mãe não te mima, é apenas carinhosa e gosta que andes limpo e vestido como pensas. Como a minha mãe fazia comigo: se descalço, sem sapatos pois, se nadar, ir para a praia, pois, se andar com amigos, uma tarte esperava por nós, pois.</p>
<p><span id="more-1072449"></span></p>
<p>Nos homens, mal sabemos cuidar às nossas crianças. Há uma grande diferença entre homem e mulher: as senhoras, durante nove meses, começam a engrossar o corpo porque um pequeno estar a crescer dentro dela. O nascimento não sem dor, mas essa dor dura um instante. A minha neta mais nova, May Malen Isley, acaba de completar os seus oito meses: não sabe falar, mas adora brincar com os colares e braceletes da mãe&#8230; e a imita de uma maneira simpática e divertida: não é uma senhora, é uma menina que só fala <em>dadadada</em>, ou <em>mamamama</em> sons que emite, não sabe falar ainda. Adora a sua casa porque está a mãe com ela e espera que o pai apareça para andar de cavalitas pelos andares da casa.</p>
<p>Nós, homens, sentimos ternura pelos nossos pequenos, mas é difícil demonstrar. Apesar de ter sido pai &#8211; mãe das nossas filhas ao longo da sua infância, tive que começar a aprender a pentear, engomar, lavar roupa, trabalhar, lava-las à escola e ir procura-las as horas adequadas as 15.30 da tarde, com neve ou com sol.</p>
<p>Talvez um dia sejas pai, porque vás crescer e vás-te namorar. Não esqueças como essa mãe te trata, não tenhas medo de ficar só com as tuas crianças. Podes ver que outros homens já o têm feito e com imenso amor, sem punir nem envergonhar. Ensina aos teus pequenos, no distante futuro, a se comportarem contigo como o mesmo amor que um dia tu vás dará eles.</p>
<p>Estou agradecido da tua mãe. Empenha-se em trabalhar, sabe rir no minuto certo, mas ai! se fazemos birra: as birras não podem ser aceites, ensina arrogância. Arrogância, dirás? O que é isso? É pensar que somos melhor que os outros.</p>
<p>Calo, nada mais digo. São muitas palavras para um pequeno da tua idade. Aliás, a tua mãe deve explicar muitas coisas y explicar, cansa.</p>
<p>Felicidades para ti do avô de quatro netos: duas meninas e dois meninos. Uma, da tua idade, outros mais velhos, mas sabem brincar a bola comigo</p>

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		<title>as culturas da cultura:infantil, adulto, erudito (III Parte)</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 01:04:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
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		<description><![CDATA[Tem chamado a minha atenção o tipo de textos que são utilizados na escola para orientar as crianças dentro do real que o adulto doutor define, e que contrasta com o real que a criança entende dentro do seu imaginário. A pequenada recebe, hoje em dia, definições que necessariamente não surgem aos seus olhos.

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			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img src="http://bp2.blogger.com/_yOS3ha1lFbk/RqqAd_vfX7I/AAAAAAAAAZQ/qjFE3gdUK70/s400/Gato-de-toga.gif" alt="" width="400" height="358" /><p class="wp-caption-text">em procura de habilitações</p></div>
<p><em>3ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral, 1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007</em></p>
<p>A cultura dos doutores</p>
<p>Queira o leitor ter a paciência de entender que me refiro àqueles seres, distantes das aldeias, que pensam por e para a infância.</p>
<p>Não me refiro a eruditos locais, dos quais já falei antes. Vou referir &#8211; me ao conjunto de pessoas que se exprimem por meio de textos e domesticam o imaginário local da criança, quer dizer, do futuro adulto.</p>
<p>O adulto é, como temos visto, uma criatura de compromisso: aceita sem sentimento e emoção os deveres e responsabilidades que assume, vive no meio da reciprocidade e da solidariedade e não foge dos deveres sociais que estão, normalmente,</p>
<p><span id="more-1072356"></span></p>
<p>para além de si próprio e do seu pequeno grupo doméstico. O adulto vive para além do prazer, como diria Freud (1920). Contudo, o seu comportamento social pode dar-lhe uma serenidade e uma calma dentro das quais podem entrar, ou ter lugar também, a alegria e a tristeza, as quais, assumidas, facilitam a interacção e a comunicação com os outros, ajudam à delimitação do próprio ser e a delimitar o ser dos outros. Esta individualização, ainda não construída, não existente na infância, é parte da interacção entre essas duas culturas que já referi.</p>
<p>A cultura do doutor é diferente. É, no entanto, igualmente importante, por ser intermediária entre a do adulto e a da criança.</p>
<p>É preciso, antes, definir para o leitor o que entendo por doutor: é o intelectual que percebe e analisa o real de uma forma racional, abstracta, que está na posse do saber erudito ou científico herdado de vários séculos de conhecimento experimental. Para as crianças da aldeia, o doutor faz parte de um conjunto de adultos, para além dos significativos. O personagem é douto porque domina, ou parece dominar, esse saber que apresenta o real teoricamente e faz do real uma teoria sem sentimentos. É, com certeza, uma pessoa que faz parte da sua cultura. Pode ou não falar a mesma língua das crianças ou dos adultos que ensina. Pode aceitar os mesmos princípios de reprodução que os seus leitores, tem sentimentos e vida quotidiana como o resto do grupo. Mas vê e ensina esse comportamento por meio de símbolos universalizantes e metafóricos (Lacan, 1953; Bourdieu, 1978; Iturra, 1986), através de um método que ordena a sua lógica de maneira diferente da lógica dos não doutores.</p>
<p>Emprego este conceito porque é um hábito da Europa Ocidental, especificamente em Portugal, denominar desta maneira quem parece ser capaz de generalizar o que se vê através de uma teoria, especialmente se possui uma habilitação académica. No</p>
<p>Século XII, a Europa fundou e criou um conjunto de grupos para interpretar os factos. Começou pela Universidade, como a de Paris; as de Oxford e Cambridge na Grã-Bretanha, outras em Itália, Espanha e Portugal; ao mesmo tempo, desenvolveu-se um movimento de criação de escolas para crianças em Veneza nas quais se ensina contabilidade e a tratar de mercadorias e troca.</p>
<p>No século XIX, bem sabemos, organizou-se a escola para treinar os pequenos nos saberes dos adultos, saberes especializados, diferentes e diversos dos que o quotidiano exigia na prática. Um ensino de signos subordinado a uma simbologia mais ampla que a simbologia dos grupos locais, e que passou a ser o saber desejado e dominante no governo da interacção, até aos dias de hoje: a escrita, a leitura e a aritmética. A própria legislação dos Estados começou, pouco a pouco, a ocupar-se com a regulamentação do acesso a uma instituição que fosse capaz de expandir entre toda a população o conhecimento e, também, a entregar instrumentos de saber, colocando toda a população sob o mesmo tipo de entendimento. O domínio da tecnologia, quer para a indústria, quer para o campo, acabou por fazer do conjunto de indivíduos dos diversos grupos sociais, como tenho já dito em outros textos (Iturra, 1990<em>b </em>e 1991), cidadãos capazes de entender as formas dominantes de fazer trocas, de produzir e comerciar, assim como capazes de entender a lei unificadora (v. Assier-Andrieu, 1987; Hosbawm, 1975 e 1994; Hazard, 1939). A cultura do doutor é a teoria que faz do real uma metáfora espalhada obrigatoriamente, e por igual, entre a população.</p>
<p>Bem pode o doutor ser alguém que participe da cultura nacional, mas o seu saber acaba por ser reificante do quotidiano. Como sobre este tipo de análise se têm debruçado muitos autores, especialmente os que estudam, professores, não vou discutir o assunto neste texto (v. Mónica, 1978; Cortesão, 1993; Stoer, 1992; Bernstein, 1971; Durkheim, 1938; Bourdieu, 1984; Cruzeiro, 1990; Benavente, 1990; Nóvoa, 1991 e 1992; Canário, 1992, etc.).</p>
<p>O que me interessa dizer é mais simples e directo: todo o adulto que vive a fantasia para poder optar, envia a criança, que vive o real para poder agir e entender, a uma instituição que passa a ser central na vida de todos: a escola, seja esta primária, secundária ou, eventualmente, universitária. A escola é uma instituição formal, hoje em dia obrigatória, que treina a população em conhecimentos teóricos e em formas de interacção diferentes da solidariedade vicinal ou familiar ou de amizade. Mas a simbologia usada na escola para representar o real, mesmo na escola actual, é de tal forma diferente da do quotidiano que faz do texto que treina um <em>puzzle </em>para os mais novos, os quais acabam por não o entender, embora o memorizem para serem bem-sucedidos, (Iturra, 1990; Cortesão, 1993; Benavente, 1990).</p>
<p>Tem chamado a minha atenção o tipo de textos que são utilizados na escola para orientar as crianças dentro do real que o adulto doutor define, e que contrasta com o real que a criança entende dentro do seu imaginário. A pequenada recebe, hoje em dia, definições que necessariamente não surgem aos seus olhos.</p>
<p>Aí, onde há uma terra que é vista pela criança ser trabalhada para produzir e poder vender e assim assegurar a reprodução, a lição fala de que “O Homem foi transformando o meio em que vivemos como uma necessidade que o Homem tem” (pág. 46, 4.º ano), embora não acrescente de que necessidade se trata. Convida, em seguida, o estudante a “mostrar respeito e carinho pela vida” (pág. 46, texto 4.º ano, 1988). A ideia seguinte, à qual o leitor é conduzido, é a de que “a Natureza precisa de plantas, animais, rochas, água e montanhas. Precisa de ar puro, aves, insectos, de chuva e de sol. Precisa de flores e do chilrear dos passarinhos”</p>
<p>(pág. 47), acrescentando, em destaque: “E o Homem precisa da</p>
<p>Natureza”. Esta frase merece um comentário para entender como o saber dos doutores tenciona incutir ideias por meio de metáforas, aparentemente verdadeiras, expressas em frases curtas e sem contexto. Em primeiro lugar, dota de personalidade uma entidade material que, para a infância, é trivial, habitual e sem vida. A forma e o conteúdo do parágrafo, como de resto de todo o texto, desfocam os aspectos importantes da reprodução social que constituem ideias motoras da cultura. O texto de <em>Meio Físico e Social, </em>que tenho vindo a citar, coloca os seres humanos acima de tudo, sem mencionar que eles próprios são parte da dita natureza. E faz um relato, no pretérito perfeito, de tudo o que tem acontecido na construção do meio físico que é também designado social pelos “sacrifícios que são necessários”; porque, acrescenta, “o homem precisa de derrubar florestas, matar animais, desfazer rochas, perfurar montanhas, desviar rios; para fazer casas, para abrir estradas, para levantar fábricas, para construir pontes, para cultivar terrenos” (pág. 47). Estas ideias são úteis para entender o agir do ser humano sobre a matéria, apresentadas como se o pensamento da criança fosse analógico, isto é, devolvendo por escrito o que se vê e se sabe experiencialmente.</p>
<p>O saber do doutor omite um aspecto central na explicação que toda a criança conhece já: a finalidade económica com que o agir é feita, factor desprezável por material. A cultura, dentro da qual o saber científico é transmitido, é uma cultura que idealiza ou fantasia com o real para o qual está a preparar o futuro produtor.</p>
<p>O objectivo de uma análise que omite o elo central do real deve ser criar agentes produtores cujo objectivo na vida passe a ser o trabalho produtivo e não o debate de ideias. O texto que tenho usado, para explorar as formas e conteúdos das teorias experimentais usadas no ensino, romantiza o real para quem o conhece de forma pragmática. Eu diria que este tipo de texto procura criar uma adesão emotiva à aprendizagem racional, enquanto ensina comportamentos sociais. Corresponde, por um lado, aos factos; por outro lado, os factos estão organizados para entusiasmar, para dinamizar abstractamente a mente que é ensinada. Noutras instâncias afectivas, como a catequese e o lar, o mito de que o trabalho é aborrecido e fruto do pecado e culpa do Homem trava a dinâmica produtiva e o imaginário económico que cria riqueza industrial: o lucro. De facto, trabalhar não é fácil nem tem beleza em si. A solidariedade de que nos falava Durkheim (1899) desaparece perante o que deve ser ensinado hoje: a concorrência.</p>
<p>Pode existir amor e coesão entre as pessoas, mas o que é dominante é a concorrência, o ganhar aos outros, comparar resultados de afazeres; porque é bom bater os vizinhos e ser melhor do que eles, não porque isso seja em si uma satisfação ou um avanço para o desenvolvimento do indivíduo. O texto é um continuado salientar do etnocentrismo, uma forma de apresentar o que de melhor os nacionais têm feito através do tempo, projectando os cidadãos de hoje num passado de sucessos e glória; assim se explica sermos descendentes dos proprietários do universo. O debate político que vai decorrendo entretanto, o facto de um país como Portugal viver na cauda socioeconómica e intelectual de uma União Monetária Europeia, não é objecto de estudo nem de análise. Tudo se passa na ciência do doutor como se houvesse um constante entretenimento, um permanente atingir de objectivos que não são os do discente.</p>
<p>Afiro os resultados escolares das crianças que tenho estudado, e posso apreciar o bem que fazem o seu trabalho do lar e o pobre que é o resultado da aprendizagem escolar. Esta aprendizagem está separada do comportamento pragmático, estando a criança exposta a duas realidades diferentes: uma, o que o grupo doméstico empreende dentro do contexto da teoria económica com o qual se debate; outra, a euforia intelectual que a letra escrita deve causar na mente infantil. Este desencontro resolve-se de forma muito simples: por meio do pensamento mágico com que a mente é alimentada. No texto de matemática para o 1.º e 2.º ano, a primeira etapa do primeiro ciclo, empregam-se histórias como <em>Branca de Neve</em>, <em>O Sapo</em>, que fazem magia com a geometria e outras. É o emprego de ideias culturais de um grupo de população, tidas como universais para o conjunto de crianças, como se estas fossem todas iguais e semelhantes no Estado-nação. Eu diria que é a maneira de impedir a entrada dos pequenos nas ideias que criam ideias que nos movimentam na interacção social. A iniciação à leitura do 1.º ano, por exemplo, apresenta símbolos que a burguesia aprecia, como meninos loiros que vão elegantemente à escola, sem nunca terem um aborrecimento. As ideias assim simbolizadas pretendem representar uma cultura unívoca, feliz, uma cultura cujo objectivo é o indivíduo separado de todos os factores do real, que possui meios que permitem uma distensão e uma felicidade, pelo menos, externa. Os desenhos deste texto mostram dois meninos sorridentes, Nuno e Valéria, a confrontarem-se se com o mundo que existe fora deles, o mundo que não lhes diz respeito.</p>
<p>Longe de mim pensar que é infelicidade o que se deve entregar à infância; bem como longe de mim pensar que o doutor tem uma vida atribulada, excepto, talvez, quando deve preparar provas para ser avaliado, ou quando sofre emotivamente, quando é enganado ou entende mal. O próprio pequeno, que já tem suficientes atribulações para entender as letras e os números, já tem a sua quota de infelicidade, a par e passo com a alegria. No entanto, se a vida social tem altos e baixos, alegrias e infelicidade; se é uma corrida para ganhar dinheiro, porquê apresentar só uma parte do real que parece ser mágico? É uma maneira de formar seres humanos que fiquem logo desapontados com as actividades, deveres e obrigações, e não entendam a sua própria tristeza, depressões e perdas.</p>
<p>Para um mundo cujo objectivo é ganhar, a felicidade aparece como o meio utilizado pelos doutores para incutir o saber. No texto <em>Meu Livro, Meu Amigo </em>(1987), para o 4.º ano de escolaridade, aparecem, logo ao início, um menino e uma menina que, no meio da relva e das flores e cada um com o seu animal preferido ao pé, lêem sorridentes e com olhos imaginários. É verdade que o imaginário de crianças é assim, bem trabalhado pela ciência que sabe o duro e difícil que é passar do afazer emotivo da vizinhança e do lar para o racional da instituição que ensina teoria. Adquirir o conhecimento é um trabalho duro e não existem elementos de apoio nas casas: o confronto com o saber é silencioso e isolado.</p>
<p>Excepto na casa do próprio doutor que, por viver no meio dos livros e teorias, ladeia os mais novos com abstracções que servem depois para aprender. O conjunto de textos, o convívio com docentes dos vários ciclos de ensino, a minha vida nas aldeias e na universidade como docente levam-me a propor a hipótese de que o saber, a cultura do doutor, composta para o quotidiano pela própria actividade social, é no campo intelectual uma tentativa de afastar a pequenada do que é denominado subjectivo, para entrar no campo analítico do objectivo. Quer dizer, uma passagem do <em>Decameron </em>(1353) para Descartes e Pascal. Uma transição para formas de interacção governadas por uma independência sábia, livre, independente e autónoma, ainda que sem entender, ou dar a entender, opções, alternativas e conjunturas.</p>
<p>A análise destes últimos três conceitos permite um melhor entendimento da interacção social e dos objectivos individuais, autónomos, onde cada um possa ser recurso afectivo e racional de si próprio para depois entrar em contacto necessário com os outros, isto é, partilhar.</p>
<p>De opções e alternativas falei quando fiz referência aos adultos.</p>
<p>De conjuntura é preciso falar agora. A passagem do tempo é um facto tão habitual que nem reparamos nele. Os pequenos, ainda menos. É como se tudo fosse igual, como se, durante um período de vida, o meio social e material fossem imutáveis, atravessados com o orgulho de crescer: cada dia que passa, mais uma habilidade louvada pelos adultos. Este facto é uma continuidade no meio de um conjunto de mudanças e desenvolvimentos que acontecem em redor do ser humano. O erudito, ao qual tenho chamado doutor ao longo do texto, retira da infância a capacidade de entender a variabilidade das relações e do poder. Do poder e da sua mudança, não se fala nos manuais, embora se diga que houve reis, expansão territorial, ou conceitos abstractos como democracia ou ditadura, todos eles mencionados como factos que não parecem influenciar os comportamentos; as lições continuam situadas no tempo remoto ou no presente abstracto.</p>
<p>É como se a cultura erudita pensasse que a criança entrega a responsabilidade dos acontecimentos aos adultos que lidam com eles. São o professor, ou a professora, os pais e os avós, ou outros adultos, que detêm o poder do tempo e controlam as mudanças do que acontece em casa, na escola, na rua, nos sítios vizinhos.</p>
<p>O tempo histórico, que influencia o comportamento e o entendimento dos factos e das relações, desaparece da afectividade individual com a leitura e a aprendizagem da criança. Assim, o real não é apresentado como heterogeneidade, como processo que faz variar o que existe; o real é apresentado, com sábia e estratégica fantasia, como se fosse estável. No entanto, a criança apercebe-se de que há um <em>antes </em>e um <em>agora, </em>um <em>ontem </em>e um <em>hoje</em>; e distingue idades em correlação com capacidades. O jogo é um dos locais onde isto se aprende. As palavras <em>grande, puto, velhote, moço, rapariga,</em></p>
<p><em>senhora, senhor </em>denotam a percepção da passagem do tempo.</p>
<p>Mas a influência que esta passagem tem em cada ser, e nas interacções sociais, não surge nos textos e, em consequência, na memória. A construção da mesma é resultado do presente e das decisões da autoridade; ou do milagre que uma divindade possa efectuar.</p>
<p>A conjuntura é a época de curta duração onde as interacções sociais e o seu governo mudam; é um tempo propício para transitar para outros comportamentos. Influenciam a economia, a técnica, o correr das ideias, o poder que as coordena. O conceito de <em>transição, </em>que designa o que ocorre, cada vez que uma nova tecnologia passa a ser dominante, como tenho definido em outros textos (1984 e 1989), quer eu, quer Godelier, quer um conjunto de colegas com os quais trabalhamos o conceito desde</p>
<p>1979 (v. Godelier e a <em>Revue de Sciences Sociales</em>, n.º 114), e o de <em>conjuntura, </em>desenvolvido especialmente por Gramsci (1921), analisam o movimento da sociedade como entidade política e religiosa.</p>
<p>Durkheim (1889) tinha já uma clara ideia da importância das mudanças. A cultura do doutor, que conduz ao homogéneo como ideal de vida, mesmo que nas aulas possa fazer referências orais a factos passados que lhe parecem importantes para entender o presente, omite o que eu ando sempre a referir: comparar comportamentos (ou uso do método comparativo) para que a infância entenda cedo a coexistência da felicidade e da tristeza.</p>
<p>O método comparativo permite observar comportamentos, instituições e ideias de uma mesma cultura, ou de culturas diferentes em confronto, e deduzir dos mesmos a reprodução da conduta.</p>
<p>O facto que mais marca a passagem do tempo pela vida na infância é o do ritual, assim como o da doença e os seus processos de readaptação à ordem social: são eles que, na prática, definem o tempo ético do grupo. Vê-se esta ideia na lição do livro <em>Meu Livro, Meu Amigo </em>(1987), num texto cujo título é “Não Quero” (pág. 95): trata do amor à verdade, apesar do confronto com a autoridade e da eventual punição, e é uma história de Guerra Junqueiro, onde se definem três comportamentos: o desejo individual que contraria a norma social (não vou à escola), o remorso que a consciência social coloca na mente do rapaz do conto, e a figura – punitiva – da mãe que define a verdade e a honra da casa. A cultura dos doutores, em consequência, é o conjunto estruturado da racionalidade derivada de Descartes (1637) que serve para submeter ao respeito das normas os pequenos que tacteiam na vida social.</p>
<p>A cultura erudita isola a infância do real total, subordinando-a ao real parcial definido institucionalmente para acautelar a reprodução nacional. É assim que se preparam trabalhadores, na nossa sociedade industrial, que produzam bens para o mercado que procura, com eles, lucro privado que o Estado converte em renda nacional.</p>
<p>Subordinação e substituição</p>
<p>As três culturas vivem uma interacção que não é inocente.</p>
<p>Tem um propósito que diz respeito à conjunturalidade do tempo, desta vez o de cada indivíduo ao longo da sua vida; e o problema que a mortalidade humana, bem como os nascimentos, representa para o grupo. Especialmente numa sociedade como a ocidental, onde tem deixado de haver hierarquias, saberes ou ofícios herdados, e tem passado a imperar a mais requintada autonomia e individualidade.</p>
<p>No entanto, é necessário lembrar um facto estrutural: tanto os adultos, eruditos ou não, como as crianças vivem dentro dos parâmetros de uma cultura católica, isto é, onde os conceitos de pecado, culpa e expiação são elaborados cuidadosamente para estabelecer os limites do comportamento.</p>
<p>A culpa é um sentimento criado para subordinar os seres humanos a uma disciplina social, onde as iniciativas e comportamentos individuais estão controlados pelo próprio grupo e as suas ideias.</p>
<p>É claro que a sociedade é um conjunto de seres humanos que são criados para ser indivíduos autónomos, com capacidade de decisão e habilidade para desenvolver o seu imaginário em benefício pessoal e do seu grupo. Emerge, porém, uma contradição entre livre vontade e solidariedade. Esta contradição, sentida individualmente por todos, traz consigo o perigo da agressividade entre os seres humanos. O grupo organiza o conceito de pecado para salvaguardar uma conduta positiva que permita uma interacção solidária. O conceito é socializado de forma detalhada, subordinando as pessoas a um agir homogéneo; por isso, é guardado nas instâncias políticas, nos mitos, nos ritos e nas instituições, instâncias que colaboram no ensino dos pequenos. É por isto que a inter-relação entre as três culturas é de subordinação dos mais fracos, os que pecam, aos tidos por mais fortes na ética e na virtude.</p>
<p>O conceito de subordinação (Iturra, 1989) manifesta-se numa afectividade, simultaneamente de sinal positivo e negativo: no positivo, é a entrega da afectividade e do amor que gera uma relação íntima entre pessoas (normalmente, a criança adere aos adultos e desenvolve um vínculo estreito, quanto o adulto é dinamizador do afazer e do comportamento); no negativo, é o fugir da razão que é apresentada e agir conforme se pensa e sente, ou conforme o que o seu próprio grupo de pares exige. No caso do</p>
<p>Nuno que não quer ser pastor, a sua atitude parece ambígua: por um lado, faz exactamente como o pai manda; por outro, observa outras possibilidades que o seu imaginário lhe oferece. As regras e normas, quer públicas quer privadas, resguardam a existência de limites dentro do necessário estímulo à autonomia necessária para viver dentro de uma sociedade concorrencial como a nossa; e os rituais são formas de introduzir cada indivíduo no comportamento esperado para a sua idade. A listagem dos pecados, quer dizer, a lista do que deve ser feito e do que deve ser evitado, define esses limites para a conduta, e o olhar do grupo social colabora ou reforça o controlo social, porque resguarda e assegura o comportamento conforme o código estabelecido pela mente humana.</p>
<p>Assim, o Nuno sabe que deve aceitar o que o pai manda: tratar das ovelhas; ao mesmo tempo, observa e participa das actividades da sua família; e, por último, o pai não se zanga por o pequeno querer experimentar outras vias. O pai entende o seu papel de adulto orientador e, ao mesmo tempo, estimulador do imaginário do seu filho que, um dia, devido à passagem do tempo, virá a substituí-lo nas suas actividades, como pastor ou tractorista.</p>
<p>Não é, pois, só e apenas o fixar dos limites do comportamento das pessoas que é uma tarefa social ou um objectivo; há também que entender o objectivo individual para modelá-lo. Estes limites do agir são necessários devido ao crescimento de novos seres humanos e à chegada de outros. Há sempre seres humanos a aparecer no grupo, porque nascem; e seres humanos a desaparecer porque perdem a sua habilidade para entender ou porque morrem.</p>
<p>Os que nascem precisam de ser treinados para entender as normas de comportamento, os conceitos e os símbolos, aprender o código de comunicação entre pessoas, a língua, bem como o significado das palavras e do lugar que ocupa cada ser humano no meio dos outros. Ao mesmo tempo, a sociedade quer continuar e, como resultado, está a prever a desaparição das pessoas.</p>
<p>Esta desaparição é a morte, mas também a doença ou a ausência.</p>
<p>O que é um processo contínuo para a reprodução social é o trabalho, seja manual ou especializado. E é para esse trabalho, que envolve gestão de recursos, que os mais novos são habilitados, pelo simples facto de o desenvolverem em conjunto com os adultos.</p>
<p>Normalmente, a Antropologia trata disto quando estuda os sistemas de herança. Mas é no dia-a-dia que a aprendizagem que habilita para substituir tem lugar. A interacção entre as culturas infantil e adulta tem este objectivo. A do erudito ou cultura doutoral retira o neófito do seu grupo social e investe nele saberes e ideias que o incorporam noutras alternativas. Sendo dominante, a tecnologia industrial de reprodução está baseada na racionalidade da gestão; a habilitação que esta cultura dá serve para abrir alternativas que retiram o trabalho do grupo local e o colocam em lugares que dão lucro a outros. Acontece com o caso do David: cresceu no meio do trabalho rural e, já mais adulto, passou a ser empregado de uma padaria, embora sem abandonar os estudos, que en este ano de 2010, o fez polícia da Guarda Nacional Republicana. Opções procuradas após aprendizagem do que é o real.</p>
<p>E desta maneira acontece com todos os pequenos que, na medida do seu crescimento, vão abandonando o lugar no qual têm morado para assistir às aulas do segundo e terceiro ciclos e, eventualmente, frequentar o ensino superior. Coo o Joel Ferreira, Anabela Lopes e outros, dos que tenho falado en outros cantos deste livro.</p>
<p>A substituição fica em risco, porque a permanência noutros lugares abre novas possibilidades, desconhecidas no sítio de origem.</p>
<p>Com este risco pelo meio das relações (o facto de se saber que o mundo é imenso e que há formas que acabam com a vida social), a substituição para a continuidade social é assegurada pela dita subordinação. Dos grupos domésticos que tenho conhecido na vida rural e na vida urbana, não existe quase nenhum que não esteja já a preparar, e até a desejar, a saída do lar dos mais novos.</p>
<p>As três culturas sabem claramente que o futuro existe para alguém, na medida em que tenha trabalho algures. Este trabalho fora do grupo acaba por ser a segurança da substituição, ao entregar recursos alternativos ao tradicional modo de fazer as coisas; é também resultado da prescrição que manda que as crianças aprendam fora do lugar onde foram feitas. A cultura do adulto é a via que apoia a cultura da criança para subordinar-se à cultura do doutor.</p>

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		<title>as culturas da cultura: infantil, adulto, erudito (II parte)</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 07:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[adulto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
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		<category><![CDATA[sem idade]]></category>

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		<description><![CDATA[Tal como a infância, parece-me que a vida adulta não tem idade. É verdade que há textos legais que definem capacidades, com base na cronologia; contudo, o convívio que tenho mantido com tanto ser humano ao longo da vida, nas minhas diferentes idades e em continentes diversos, assim como em trabalhos de campo diversificados e prolongados, tem-me feito pensar que a cronologia está correlacionada com uma multiplicidade de factores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>continuação <a href="http://www.aventar.eu/2010/08/31/as-culturas-da-cultura-infantil-adulta-erudita/">daqui</a></p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 482px"><img src="http://lh3.ggpht.com/_nTOFe8xv07Q/SZyBP2yrJxI/AAAAAAAAAuU/GhYY-A_koyA/article-1148620-038F9D73000005DC-649_468x351%5B5%5D.jpg?imgmax=800" alt="a cultura do adulta" width="472" height="355" /><p class="wp-caption-text">adulto a se habilitar para a corrida pela vida</p></div>
<p><em>2ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral</em></p>
<p><em>1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007</em></p>
<p>A cultura do adulto</p>
<p>Tal como a infância, parece-me que a vida adulta não tem idade. É verdade que há textos legais que definem capacidades, com base na cronologia; contudo, o convívio que tenho mantido com tanto ser humano ao longo da vida, nas minhas diferentes idades e em continentes diversos, assim como em trabalhos de campo diversificados e prolongados, tem-me feito pensar que a cronologia está correlacionada com uma multiplicidade de factores.</p>
<p>Um deles parece ser o lugar social que se ocupa: quem define o que deve ser feito e quem obedece com o seu desejo de aceitar.</p>
<p>Um outro factor diz respeito ao maior ou menor envolvimento e entendimento que uma pessoa tem dos valores aceites pelos indivíduos de um grupo, classe, país ou Estado. Outro ainda diz respeito à passagem do tempo histórico que, em correlação com a tecnologia, vai acumulando experiência social que constrói uma memória. A lembrança de pessoas que convivem é heterogénea, porque foram criadas em épocas diversas, ainda que necessariamente próximas. Dessa lembrança nascem a capacidade de entender contextos e a aceitação de aspectos da vida de que gostamos e que nos desagradam, assim como se desenvolvem alianças estratégicas e associações.</p>
<p>O ser humano, como tenho observado, é mutável, porque é resultado da história. E a ideia que temos do adulto é apenas um paradigma, uma definição, uma expectativa: o seu comportamento varia conforme os objectivos individuais e sociais. Quer nos bairros quer nas aldeias e etnias que estudei, os mitos definem expectativas e comportamentos, aparentemente hegemónicos, definindo objectivos comuns, coincidam ou não com o objectivo da construção de cada um através da sua vida. Um outro factor é, ainda, aquilo em que se acredita e o futuro que se espera alcançar.</p>
<p><span id="more-1072321"></span></p>
<p>E, talvez, a mudança de hierarquia que toda a pessoa sofre – digo sofre, porque não há ritual no Ocidente que prepare para o lugar que se ocupa através do tempo. Pode parecer uma hipótese filosófica, se bem que seja retirada da actualidade cultural. Uma etnia Baruya (Godelier, 1982) ou Kiriwina (Malinowski, 1922) ou Manus (Mead, 1928), uma análise do tipo da de Goody (1972) no seu estudo do mito dos LodaGaba, o Bagré (1972<em>a</em>), ou esses textos de uma beleza e simplicidade transcendentais desse mestre que foi Meyer Fortes (1989 e 1959), ou, ainda, as manipulações analisadas por Leach em Pul Eliya (1961) acerca da conveniência da continuidade social, <em>ergo </em>o lugar e tempo de um <em>birmano</em> entre os seus; as estratégias que Bourdieu viu entre os Kabila (1972) e as que eu próprio testemunhei na Galiza (Iturra, 1973, 1976, 1991,1996, 2010), no Chile (1971 <em>a</em>, 1971 <em>b</em>, 1972, 1996,1998,2009) e em Portugal (1985, 1987, 1991,1998,2003,2007) definem nos factos o que a lei fixa a partir dos textos de Santo Agostinho (412) e de Tomás de Aquino, (1267). A vida adulta tem sido redefinida através dos conceitos do novo Catecismo Católico (1991) e da lei civil, desde que os países passaram a associar-se na Europa (1945, na ONU; 1958, no Tratado de Roma; 1992, em Maastricht), na África, no Oriente e na América Latina. Não cabe mencionar as ciências que criam definições somáticas, psicológicas, económicas, médicas, químicas, jurídicas, de solidariedade, de troca. Mauss (1924) e Firth (1929) salientam crenças, instituições e alianças, para decidir a vida adulta onde não se vêem indivíduos. Napoleão (1810) codificou o que era ser responsável e, seguindo o seu exemplo, o resto das leis da Europa. É só ouvir Wagner, no <em>Anel dos Nibelungos </em>(1852), ou ler o <em>Milagre da Rosa</em>, de Jean Genet (1946), O <em>Tempo, Esse Grande Escultor</em>, de Yourcenar (1983), e vários outros que Guinzburg (1976) tão bem retrata, Freud no seu <em>Moisés </em>(1914) e no seu <em>Leonardo </em>(1917), John Locke (1690), e o tido como dedicado à educação da infância, por engano nosso, Rousseau (1762).</p>
<p>Os tempos marcam o tempo e o contexto do tempo invoca a idade. Nunca esqueço o exemplo que Mead (1928) nos dá ao falar de um <em>matai, </em>chefe de um grupo em Samoa, que lhe confessará: <em>o meu pai morreu muito novo, tive de herdar o seu título; para parecer velho e ter autoridade, devo pintar o cabelo de branco, andar curvado e lento.</em></p>
<p>Todo o ser humano tem dois corpos, como diz Boureau (1988) do rei: um divino e outro humano, porque todo o ser humano quer viver como entende, bem como viver o que o social lhe faz viver. A idade do adulto é uma definição social adstrita a um estatuto. Antoine de Montchrestien foi mais claro e, no seu <em>Tratado de Economia </em>(1616), fornece uma listagem de comportamentos para atingir os objectivos sociais que dinamizaram o Concílio de Latrão (1153): somos todos indivíduos autónomos e responsáveis cujo objectivo é sermos ricos, mesmo que à custa dos demais ou em concorrência com os outros. A verdade é esta e é aí que é preciso perguntar o que sabem de tudo isto os pais do Miguel, do David, do Paulo e do Nuno, esses casos que me serviram para argumentar até este ponto. E perguntar que saberão disto os professores que ensinam crianças, esses adultos mandatados pela ciência, pelo poder conjuntural e pela lei do seu tempo.</p>
<p>Um ser humano é, finalmente, como a sonata para violino de Bach, BWV 1001 (1720): calmo como no começo do Adágio; às vezes impetuoso e desarrumado pelo seu confronto entre o que quer fazer e o que lhe dizem que deve ser feito, como na Fuga; exótico em certas condutas como no <em>Allegro </em>e bem-disposto quando acaba por entender o seu contexto e aceitar, goste ou não, o contexto dos outros, como no <em>Presto</em>. Uma harmonia que se faz e desfaz e que percorre as escalas de notas que o real lhe apresenta, mais rápido, mais grave, mais contente, menos feliz. Através do tempo, o ser humano muda e torna-se como esse violino sozinho que geme ao vento. A sonata que eu costumava ouvir em Vila Ruiva, de manhã cedo, quando fazia os meus apontamentos ou redigia as minhas notas. Esse violino (metáfora do indivíduo que muda), em pouco espaço, quatro cordas apenas, contém as notas que podem encantar o ouvido e entreter quem entende e é capaz de ser para outro como para si próprio. É uma frase que reproduz de uma outra maneira o que há milhares de anos foi dito ao povo palestiniano, conforme a <em>Bíblia </em>no livro do Êxodo (300 a.C.), e reinterpretado há já quase dois mil anos nos novos textos que a Palestina preparou e com os quais conquistou Roma ao Ocidente. Um texto que é a base do conceito fundamental da nossa cultura, a introspecção que Latrão (1152) e Trento (1545-1563) organizaram para as pessoas, para o contexto das pessoas. O comportamento do adulto antes destes Concílios diferia conforme o lugar geográfico onde vivia e o grupo de ideias ao qual pertencia. É Trento que, com base nos cânones, sistematiza o que Santo Agostinho já dizia no século IV: <em>somos todos livres, pecadores e iguais</em>. O conceito de pecado, trabalhado primeiro pela Igreja Católica e pelos Protestantes depois, organiza o entendimento do adulto e paira sobre a sua culpa herdada da ideia de mortalidade e de interacção solidária e obrigatoriamente bondosa; facto que o ser humano bem conhece e que são os dados que lhe permitem construir o seu convívio e o seu imaginário. Conhecidos pelo adulto, formam ideias, na base das quais ele se relaciona com a infância. Essa infância que é preparada desde muito cedo para estruturar nesta base o seu comportamento.</p>
<p>Mas o adulto tem uma estrutura de ideias que passa por cima do imaginário infantil (parte do qual já temos visto), estrutura que analiso adiante. De momento, quero voltar à questão etnográfica que já coloquei: será que os pais das crianças, com quem tenho vivido, entendem como agir no real? E qual é esse real? O real é ganhar a vida, transformar a matéria em bens que seja possível consumir, trocar e vender. Em consequência, o real é procurar alternativas que servem para viver. A vida desses pais, hoje em dia, desenvolve-se dentro da necessidade de obter dinheiro para o seu consumo e o consumo dos seus dependentes.</p>
<p>Sendo a sociedade ocidental resultado da teoria da concorrência e da acumulação para a poupança e o lucro, todo o agir se baseia na habilitação para aceder a lugares de trabalho. É assim que o Estado prevê, a partir do século XIX, a escola como lugar de habilitação. Mas essa escola bate-se contra o que eu tenho vindo a denominar a mente cultural (Iturra, 1990<em>b</em>). O conjunto de hipóteses e teorias que as pessoas ouvem, estão ou são emitidas numa linguagem e numa lógica que fica fora da usada no quotidiano. O caso dos pais do Miguel, esse pequeno líder dos rapazes de Vila Ruiva, é muito característico. A mãe (Elvira), filha de um jornaleiro sem terra e caseiro do seu primo comerciante ausente com a família na cidade mais próxima, precisa de trabalhar à jorna para ganhar dinheiro. Elvira conhece um moço da sua idade (v. Genealogia 1) proveniente de uma vila próxima e trabalhador nas obras. Casam e têm dois filhos, o dito Miguel e a pequena Marta. Como as obras acabam e não há construções perto, abandona o sítio e é contratado por uma empresa que faz construções perto da cidade de Lisboa. Abandona semanalmente o lar para viajar para a capital com um colega e amigo, contribuindo com o seu salário de pedreiro quer para a sua própria manutenção no lugar onde trabalha quer para a casa. Nem sempre Manuel regressa a casa todas as semanas: o trabalho ao fim-de-semana é já uma vantagem para incrementar a poupança, para além de não gastar em transportes. Sóbrio, de bom comer, silencioso, bom colega, a sua actividade rende, porque maximiza o salário. O trabalho de Elvira, sua mulher, bem como o facto de morar em casa dos pais, permite que o conjunto do grupo viva do salário, gastando o mínimo. Elvira e seus pais trabalham a terra do dito primo e cobram-se em espécie e em usufruto do que existe na quinta: alfaias para trabalhar pequenas leiras que alugam algures, batata e milho que vendem sem o primo saber, água e tanque para lavar a roupa. Em conjunto, considerando que Elvira trabalha à jorna para outras casas, o grupo doméstico colabora quer na produção de bens quer na manutenção do conjunto. Cada um deles dedica a sua força de trabalho conforme as suas capacidades e saberes. Os pais do Miguel não passaram da 4.ª classe, tal como muitos outros indivíduos seus vizinhos, que empregam o seu tempo como empregados do comércio ou do Estado.</p>
<p>O Ocidente é a sociedade das habilitações: ou se sabe ciência racional e positiva ou só se pode agir com o conhecimento cultural. Não são os adultos que definem as alternativas e opções relativas aos meios de produção maximizadores, nem se utiliza o conceito de maximizar: todas estas palavras são pertença dos teóricos que olham para o real com métodos e não através da conversa directa, participada, emotiva, fraterna. Qual destes olhares entende o real? E que será o real? Este tipo de questões não deixa de trazer outras ainda, que retomam e prolongam as do início desta parte do texto: o que é um adulto? Porque o real muda conforme a pessoa que se é, seu contexto, seu meio social, seu trabalho e a sua classe de pertença. Algumas respostas ficam já esboçadas através do caso do Manuel e Elvira e dos autores citados.</p>
<p>Desde há muitos séculos, o real que forma a mente do adulto, é o que se vê diante dos olhos. Kant (1739) debateu já o assunto, assim como Hegel (1816) e Marx (1857) o definiram, tal como Freud (1918) e Lacan (1958), entre outros, o debateram também.</p>
<p>Eu diria que o real se configura a partir de dois conjuntos de elementos: os recursos que servem de meio para atingir os nossos objectivos; e o entendimento da memória social. No primeiro caso, ou na primeira variante, cada pessoa tem uma formação na qual foi introduzida pelos seus próprios adultos. É bem sabido que esse adulto ensina o mais novo, insere-o no social, construindo a sua individualidade na interacção com os outros. É por isso que a cortesia é um valor que define o comportamento perante os outros, como quando se diz “por favor” e “muito obrigado”: a pessoa não se diminui, antes aprende a conhecer os seus limites e as fronteiras dos outros. Em consequência, parte do real são os outros seres humanos, divididos em hierarquias, idades, comunicação, afectividade, respeito, manipulações, ignorância do outro ou parte dele. Ao mesmo tempo, essa parte da realidade muda porque o tempo passa, a experiência se acumula, a mente e o corpo ficam menos autónomos. Há ainda outra parte do real, a do entendimento das capacidades próprias e do que cada um consegue com elas.</p>
<p>Nem toda a materialidade observada pelas pessoas é semelhante para todas elas: um campo ou é uma passagem ou um sítio para trabalhar. Assim, toda materialidade é, ou não, recurso para os nossos objectivos conforme o entendimento que tenhamos da mesma. Permita-me o leitor invocar duas lembranças pessoais como exemplos: quando trabalhava (com a enxada), com vizinhos meus da aldeia de Vilatuxe na Galiza, os movimentos que eu precisava de imitar para fazer como os outros eram de propósito acelerados, duros e contínuos, tendo os aldeões a intenção de cansar-me e brincar comigo. Ensinado a respeitar o agir dos demais, não reparava na brincadeira nem sabia que eu não era recurso para eles, como eles não sabiam que eram recurso para o meu estudo. Uma outra lembrança, aliás já contada num texto (Iturra, 1979), do que me aconteceu quando, cheio de coragem, fui, às 6 horas da manhã, limpar o estábulo de um dos vizinhos de Vilatuxe, tarefa para a qual tinha sido convidado com o objectivo de ser avaliado pela vizinhança. No desejo de ser igual a todos, trabalhei na limpeza dos detritos dos animais com tal afinco que duas horas depois estava exausto e fui obrigado a abandonar o trabalho. Os meus limites, para mim e para os outros, ficaram definidos e passei a ser o escriturário do lugar e a ser tratado por <em>Don. </em>Cada um deles estava a tentar definir qual o meu real e qual o deles no respeitante a mim (Iturra, 1979 e 1984). Não há, em consequência, ser humano que eu tenha conhecido, que me defina a mesma materialidade, de forma diversificada para cada um. Essa é a composição dos grupos de trabalho que tenho definido em outros textos (Iturra, 1980) ou que Brian O’Neill (1984) tem tão cuidadosamente analisado, bem como José Manuel Sobral (1993),</p>
<p>Miguel Vale de Almeida (1993) e Paulo Raposo (1991). Em ideias mais universais, o real pode ser definido como um conjunto de recursos (pessoas e coisas) utilizados para atingir o fim requerido pelo objectivo de vida definido pela pessoa.</p>
<p>A vida da pessoa é assim heterogénea: adulto na persistência e disciplina do seu trabalho, pouco entendido e até desconfiado em tudo aquilo que fica fora do seu campo de experiência. É por isso que mencionava um segundo campo interessante para entender o adulto que forma e introduz crianças na vida adulta: o entendimento da memória social. A memória social é o conjunto de lembranças pessoais que ficam no grupo depois da sua transmissão por muitos indivíduos que convivem a partir de épocas e conjunturas diferentes (v. Feutres e Wickman, 1992; Iturra, 1990, 1991,1993, 2003 e 2007). A memória social define os meios válidos para objectivos conjunturais. Assim, emigração é sinónimo de sair da terra para se dirigir a outro país, para juntar dinheiro na base da poupança que se faz com o próprio corpo: muito trabalho, nenhuma distracção, quase sem comer e dormir. De aventura pessoal vivida por pessoas do Sul da Europa, passou a ser um contrato regulamentado pela CEE primeiro, pela UE hoje em dia.</p>
<p>Para a linguagem comum, emigrar é, no entanto, o abandono da terra para fazer dinheiro alhures. A memória social indica o caminho para enriquecer e os sentimentos não têm hoje em dia o valor ou a saudade que tiveram quando emigrar era um risco e não um contrato, ou um regresso ao local de trabalho depois das férias de Verão em bairros ou aldeias. Saudade que não existe porque fica um contingente de seres humanos a substituir o trabalho dos que partem, o que acaba por ser pesado e duro para eles, um incremento do afazer e da utilidade e uso das alfaias e do cuidado dos mais novos que ficam. Este conjunto de ideias faz-me retornar a dois conceitos fundamentais para o meu argumento: o real e o adulto.</p>
<p>O real acaba por ser a normatividade social que define o dever de cada um, o sítio de trabalho, a obrigação, que avalia a capacidade de todos para adjudicar a cada um uma obrigação, como detalhei nas opções da Elvira e Manuel. O real é identificar alternativas úteis para o fim traçado pelo grupo: a sua vivência e subsistência.</p>
<p>Identificar alternativas significa entender que recurso do meio social é útil para render dinheiro, essa mercadoria que a sociedade ocidental manda juntar para poder sobreviver e investir, quer em trabalho, quer em pessoas: sementes, carro, educação, ajuda entre pessoas. Identificação de recursos que se faz na medida da utilidade que tem quem trabalha e de recursos que são definidos, conforme os laços que se estabelecem entre as pessoas, entre as individualidades. Para além do caso do Miguel e dos seus pais de Vila Ruiva, está o caso do Nuno, pastor em Trás-os-Montes, já referido. O Sr. Avelino – pai do pai do Nuno – e os seus irmãos, pelos começos deste século, são jornaleiros dos morgados locais, isto é, daqueles proprietários de terra por mandato ou permissão do rei e da lei. Mais tarde, quando a conjuntura permite a compra de terras, o Sr. Avelino Raimondes vai-se embora e junta dinheiro para comprar terra e ovelhas, que com os filhos Horácio, Lurdes e Nelson, pai do Nuno, trabalha, enquanto Maurício, o filho emigrado em Espanha e pastor, colabora com o pai na poupança de dinheiro para poder investir. O pequeno Nuno vê o resultado final: o avô jornaleiro, o pai proprietário, o tio Sílvio tratador de animais que, dentro do mercado da procura e oferta de ovelhas, vende as melhores da família e compra os melhores machos, do ponto de vista genético, para melhorar o produto. Sílvio não sabe tomar conta de ovelhas, mas sabe falar, tem maneiras à mesa, conhece a contabilidade e saltita entre os dois países para maximizar a moeda com a qual troca bens. Quando está na aldeia, nada mais faz que deambular pelas ruas e falar com os vizinhos.</p>
<p>E, como todos os que temos trabalhado em economias abertas, um comerciante que entende de investimento e maximização.</p>
<p>Nada disto aprendeu na escola. A escola que o pequeno Nuno, no seu imaginário, não aceita, porque ele próprio é parte do trabalho.</p>
<p>Eis o que me leva a retomar outro conceito que mencionei atrás: ser adulto.</p>
<p>Ser adulto é o entendimento das oportunidades existentes para o grupo e a comunidade para ganhar mais e melhor – o objectivo histórico que Montchrestien definiu depois de os mercantilistas terem dado o exemplo. Ser adulto é ter um conhecimento das alternativas do real que permita uma autoconfiança em qualquer empreendimento, autoconfiança reforçada pelo apoio dos mais próximos. O adulto, que tem um objectivo autónomo, associa-se com os seus iguais, entende os contextos e responsabiliza-se pela inserção dos neófitos na vida social. Enfim, sabe-se, ou espera-se, que o adulto seja a pessoa autónoma, independente, responsável pelos seus objectivos definidos e racionais, emotivamente dependente de quem o ama, mas de quem nada exige porque entende o seu contexto. A cultura do adulto caracteriza-se pela identificação de alternativas e a persistência dentro das que escolhe, definidas pelos seus objectivos. O adulto utiliza a sua fantasia dentro desse real heterogéneo com o qual se debate para obter o que para ele tem definido. O que mais o caracteriza é pensar que o seu mundo é central e dominante e que pode e deve conduzir, com o carinho e a firmeza que tenho observado, as crianças a aprenderem a identificar pessoas e coisas. O adulto é espontâneo, embora formal, na expressão dos seus sentimentos que não gasta gratuitamente, nem com desculpas: o que sente, pensa-o primeiro, e age, uma vez que os correlaciona com o seu objectivo. A criatura adulta é calada, prudente, persistente e orienta a sua actividade pelo seu trabalho. E entende, e faz entender, que na vida há limites no agir e na interacção, como há para si próprio.</p>
<p>Na cultura que estudo, estes dois mundos, adulto e infância, encontram-se, faltando ao adulto o entendimento da epistemologia, do sentimento e da racionalidade do mais pequeno (cf. Klein, 1932; Opie, 1979). Pelo que, sem aperceber-se de que é ele o primeiro a ensinar, envia o pequeno para a instituição que o habilitará e dotará dos graus e diplomas necessários para desenvolver&#8211;se na vida. Só que, se é o lar que ensina, primeiro é preciso entender o que é que o lar ensina: o entendimento do agir, a consequência do agir e a causa do mesmo, a responsabilidade por si próprio. Que os pequenos, individualmente, são recursos para si antes de serem recurso para os outros, isto é, que se aceitam e se entendem a si próprios como parte do grupo mais alargado do social. O adulto, fechado na monogamia e no conceito de paternidade e maternidade como autoridade que todos reconhecem, acaba por mandar, não procurando conhecer o saber dos mais novos e, então aí, fixar os limites do seu comportamento. Bem como o seu próprio comportamento de adulto tem variabilidade, conforme seja o correr da vida: se tudo anda bem, há carinho; se tudo anda mal, há raiva, castigo e gritos. O adulto nem sempre entende que é ele a primeira escola para os neófitos, com os quais tem também muito a aprender: há épocas nas quais o adulto está limitado pela actividade dos pequenos, cuja aprendizagem impõe fronteiras ao que estava habituado a fazer quando jovem; mais tarde, o adulto deve ouvir a criança e o adolescente, orientando com conversas, debatendo opções.</p>
<p>É no debate, e não na autoridade, que a infância aprende, e aprende enquanto ama. O adulto não é ensinado a saber que é o primeiro que ensina, não língua e hierarquia, mas disciplina e integração gratificante no meio social. Que tem compromisso com os seus e por isso deve ensinar o amor e as alternativas da vida, como sucede entre os grupos empobrecidos.</p>

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		<title>as culturas da cultura. infantil, adulta, erudita (I Parte)</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 07:00:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
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		<description><![CDATA[De ignorar esta influência da conjuntura no quotidiano do crescimento infantil resulta a falta de entendimento, ajudada pelo facto de se viver só para um objectivo que se tem tornado hegemónico: juntar dinheiro e também por se subsumir mais a esta actividade do que à cultura dos pais, também heterogénea.
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 478px"><img src="http://imagens.n3po.com/cache/Fotos/Ovinos-menino-pastor.jpg_900.jpg" alt="ser ou não ser " width="468" height="387" /><p class="wp-caption-text">o menino que não queria ser pastor, em época de crise, não teve opção</p></div>
<p><em>1ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral</em></p>
<p><em>A questão, 1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007</em></p>
<p>Miguel (v. Genealogia 1), o neto do Marques, queria uma bicicleta. Conseguia equilibrar-se na minha, que era preta, de ferro e pesada. Seu pai, a trabalhar nas obras de uma cidade longínqua, não tinha dinheiro suficiente para comprar uma; a mãe,</p>
<p>jornaleira, guardava o dinheiro para os gastos da casa. Os avós, quinteiros da casa da aldeia onde eu e eles vivíamos, observavam os vizinhos e sonhavam com outra vida enquanto entregavam produtos e dinheiro das vendas aos proprietários. A bicicleta não podia materializar-se, e Miguel Marques sabia; com sete anos, sabia. Mal podia, entrava na garagem da casa, enquanto eu andava pelas ruas e “belgas”1 ou estava ausente, tirava a bicicleta e juntava &#8211; se aos amigos que tinham cada um a sua. Filipe Manuel, o pai, ausente nas obras, não sabia. Nem sabiam Elvira, a mãe, longe nas jornas de outras casas, nem o avô Marques, ocupado com a rega e a cava da terra da quinta. A avó Elvira, lavava no tanque, falava à pequena Marta, sua neta, que olhava o irmão, sem nada dizer. A bicicleta não era dele, era de outro que não precisava dela nesse momento, esse outro sorridente e nunca zangado. <span id="more-1072308"></span></p>
<p>1 Designação dada às parcelas de terreno.</p>
<p>Miguel divertia-se. Os amigos apoiavam-no e iam com ele de passeio. Quando eu voltava, embora toda a vizinhança o soubesse, o segredo não me foi nunca contado e, como o Miguel voltava a colocar a bicicleta exactamente no mesmo sítio, nada percebi, até ao dia em que vi o pneu furado. O avô Marques, alcunhado “Mouco”, não sabia, porque nada tinha ouvido. A avó Elvira estava no seu canto do tanque; a mãe, longe nas jornas; Filipe Manuel, o pai, só voltava aos sábados para comer, ver os amigos, estar com a mulher, beber, discutir e brincar até tarde, só entre homens.</p>
<p>Miguel estava na charneira das culturas da sua sociedade: disputava com o seu amigo e rival David (v. Genealogia 2) a chefia do grupo de rapazes e as atenções das raparigas; o seu imaginário deambulava no meio da preocupação fantasista dos seus pais e avós, distraídos pelo trabalho para ganhar dinheiro, e o não saber que havia distintos direitos sobre a propriedade e o uso dos objectos que não fossem alfaias, terra, frutos, ferramentas. Mesmo o monte de areia, que esperava ser misturado com cimento para construir casas, era de outrem, sendo entretanto também o sítio predilecto para subir e rebolar com os amigos.</p>
<p>E assim decorria a sua vida quotidiana sitiada pela autoridade de adultos que gritavam “anda cá”, “leva isto”, “traz a enxada”, “despacha-te”, “vê lá se lavas a cara”. Autoridade destinada a delimitar o agir. De todas, a mais respeitada socialmente aparecia aos domingos, às oito horas da manhã para dizer a missa, o ritual da palavra explicada de forma erudita: a hora dos empurrões em silêncio, ao Bento (v. Genealogia 2), ao Joel (v. Genealogia 3), ao Hélder (v. Genealogia 4), ao António (v. Genealogia 5); a hora de sussurrar comentários sobre a fila da frente, a das raparigas, que arranjavam a roupa, tratava do cabelo e iam comungar primeiro.</p>
<p>O padre falava, não se sabia de quê, avisava dos eventos litúrgicos da semana e usava palavras que eram de padre, ouvidas e repetidas pelos adultos. Aos domingos, aparecia também o outro erudito, essa outra autoridade longínqua, presente tanto no ritual dominical como na vida quotidiana, o professor, que a seguir à missa ia falar na catequese.</p>
<p>Miguel, no meio de tanto ser humano, vivia só, passava pelo meio de todos, ninguém notava ou se apercebia da sua presença: apenas existia para os adultos quando fazia barulho e um “cala-te” saía da boca de alguém. Miguel, esse rapaz de oito anos que, como todos os outros, era o resultado socialmente previsto do desejo dos seus pais. E, socialmente, era ponto assente que devia ser alimentado, vestido e corrigido. Nunca ouvido.</p>
<p>Nenhum destes rapazes sabia que havia pessoas denominadas cientistas e que os cientistas eram seres que falavam da cultura como um comportamento unificado e organizador de condutas (Frazer, 1890; Thurnwald, 1906; Mead, 1933; Malinowski,</p>
<p>1944) ou que falavam de cultura como um conceito que subsume condutas esperadas de cada uma das idades e condições.</p>
<p>Palavras e ideias existentes fora do quotidiano de jogos e brincadeiras infantis. Tão-pouco a meninada sabe que toda a união é monogâmica, que toda a relação é orientada por hierarquias, que as coisas têm um preço, que a língua é governada pela gramática vigente e que no processo de vida há também uma via sacramental que organiza alianças que evitam tabus; e uma lei que define o que é permitido fazer, quando e com quem. Saber tudo isto, para um menino como o Miguel, o Joel ou outros seria como conhecer o conteúdo do jornal, inexistente em outro sítio que não fosse o café local. Nem eles sabiam de outras ideias dos cientistas, por exemplo, que existem três culturas na sociedade à qual se pertence: a dos que mandam, esses adultos temíveis que corrigem; a dos que obedecem, essas crianças ignoradas, excepto quando constituem braços suplementares para o trabalho em casa e no campo; e, mais distante ainda, a dos cientistas, ou a cultura da palavra escrita que manda, obriga, abstrai e sistematiza a memória da experiência humana, a cultura que se aprende pelos textos. Ideias que a meninada que gosta de bicicletas teria de retirar dos textos que falam de pessoas, grupos domésticos, estruturas parentais, contratos, comportamentos, trabalhos, ritos, mitos, ou seja, ideias pelas quais um conjunto de seres humanos orienta o seu agir social e que a criança desconhece ou mal percebe.</p>
<p>Como ia saber o Miguel que a ideia de introspecção, que remonta ao século IV (Agostinho, 387), foi criada para analisar se a consciência está a agir ou não de acordo com as normas prescritas para todos pelos eruditos, de acordo com a categoria e idade de cada um. Ideia que os adultos, com autoridade, reproduzem. Como ia interessar ao Miguel o facto de, a partir dos séculos XI e XII, os grupos sociais terem passado a estar unidos por uma identidade unificadora que se opunha e aliava a outras que concorriam no comércio, trocavam entre si bens que não podiam confeccionar ou que faziam circular como dádiva para obter outros. Teologia, Filosofia, Direito Canónico, Doutrina, Economia constituem elementos do que os cientistas denominam cultura, os adultos internalizam com as suas próprias palavras, e os pequenos exploram para entender, na base do que definem os eruditos.</p>
<p>Depois de anos de pesquisa etnográfica em etnias, bairros e aldeias parece-me evidente que toda a sociedade está composta por estes grupos que se inter-relacionam: os mais novos que começam a aprender os hábitos dos mais velhos; os mais velhos que organizam a reprodução; e os eruditos locais, isolados e afastados do quotidiano popular, que vão acumulando palavras e ideias dos cientistas longínquos, às palavras e ideias que, conjunturalmente, se definem como as mais importantes para manter o grupo dentro da História. Ao longo desses 30 anos de trabalho de campo, entendi  racionalmente que havia um problema central em qualquer grupo: trata-se de dinamizar o processo de substituição dos que morrem, dos que perdem a memória e a capacidade produtiva, pelos que nascem e precisam de entender as palavras, os gestos, os lugares, a utilidade das coisas e o movimento do corpo, essa alfaia central de todo o trabalho humano (Iturra, 1989).</p>
<p>Uma alfaia, como diz Paulo Raposo (1991), que pensa e age, que lembra e tem ideias, que aprende com a experiência e que transforma a matéria, como define Iturra (1989 <em>b</em>, 1994 <em>b</em>, 1995 e 1996). Porém, posso dizer que o Miguel é resultado de três culturas: a sua própria, a dos adultos e a dos eruditos locais, que a obtêm de investigadores, dos factos sociais ou materiais, que eu denomino cientistas ou doutores. A cultura que denomino dos doutores é parte experimental da cultura erudita e reproduz as ideias que formam adultos e crianças. O conjunto das três culturas consegue organizar uma unidade (que tem sido tradicionalmente denominada a cultura) e define um conceito, hoje pouco utilizado, de uma conduta homogénea, central e unificada, onde condutas heterogéneas, de gerações de épocas diferentes e inter-relacionadas entre si, não são inquiridas. Cada uma das três culturas, que conformam a tradicionalmente denominada cultura central de uma sociedade, tem lógica, objectivos, epistemologia e ideias próprias. Tem indivíduos diversificados que as cultivam e que, embora estejam cronologicamente obrigados a conviver, fogem uns dos outros, porque agem a partir de epistemologias organizadas diferentemente no tempo e na experiência. Porque cada indivíduo semelhante a outro entende-se e comunica, enquanto os que não se entendem têm de se explicar, e explicar é desfazer em conceitos a totalidade à qual cada um está habituado.</p>
<p>E conceitos diferentes são intransmissíveis. Por isso, é preciso entender as características de todo o grupo cultural em inter-relação.</p>
<p>Porém, esquadrinhar a denominada cultura de uma sociedade é entender a sua variabilidade e heterogeneidade inscrita nas várias gerações que interagem.</p>
<p>A cultura infantil</p>
<p>Não é uma definição o que procuro. O que procuro são características para entender a epistemologia infantil. Gostava de dizer que a infância não tem cronologia. É um processo possível de se fixar entre o nascimento e a puberdade, com formas de comportamento heterogéneas. Nem vale a pena repetir tudo o que sabemos sobre a fragilidade do ser humano que vem ao mundo nem, em consequência, da necessidade de o nutrir, de o cuidar, de o vestir, de o agasalhar, de lhe fornecer o que é indispensável nessa fase do ciclo de vida. O cuidado dispensado varia de acordo com os ancestrais, a época histórica em que se vive e o trabalho que os adultos pratiquem, bem como com a região do mundo na qual vive. Não deixa de ser importante dizer que depende da classe social; mas a classe como conceito engloba comportamentos igualmente heterogéneos, denotando o conceito uma hegemonia esperada ou pressuposta de uma classe sobre outra. A variabilidade está relacionada com a afectividade na comunicação e o cuidado dispensado pelos outros, pares ou adultos.</p>
<p>Na observação realizada durante um ano (entre 1992 e 1993), num jardim-de-infância, percebi o apreço e a amizade demonstrado pelos pequenos provenientes de lares de adultos afectuosos com eles; também observei no interior de algumas casas o empenho desses adultos que tratavam as crianças com paciência. No entanto, estas crianças tinham os seus momentos agressivos, especialmente se a sua vontade não era satisfeita. Outras, provenientes de lares cujos pais não tinham trabalho ou dedicavam o seu tempo</p>
<p>a ir ao café, beber e falar com os vizinhos, tinham momentos de solidariedade com os colegas e de saudade pelos irmãos ausentes.</p>
<p>Paulo (v. Genealogia 6), irmão mais novo de um grupo de quatro irmãos, apresentava sinais de inadaptação ao jardim infantil. Ele comunicava bem com os seus irmãos e com os quatro primos direitos, e a sua afectividade estava tão endereçada aos ditos primos e irmãos que só queria fugir do infantário para a escola vizinha onde os seus parentes estudavam; não era estranho ter de correr a resgatá-lo do canto do pátio a partir do qual podia comunicar com o irmão mais velho e pedir para estar com ele. A separação, aliás legal, de seres humanos que habitualmente estão juntos, biológica e afectivamente vinculados e desejando estar juntos, não fazia sentido para a criança de cinco anos.</p>
<p>Lembro-me de nas férias de Verão de 1992, quando íamos com um grande grupo de crianças brincar no pinhal, o Paulo e os seus formarem um grupo separado cujos membros se protegiam entre si. A merenda que eu comprava e tinha o cuidado de levar era transportada pelo dito Paulo que, desta maneira, guardava as guloseimas para os outros do seu grupo familiar e as defendia dos “predadores” mais crescidos, interessados também nas batatas fritas e nas bebidas. É verdade que os mais crescidos, como o David e o Hélder (12 anos), já perto da puberdade e sistematicamente a falar de meninas e das suas mesadas – sem se importarem com minha discreta presença –  queriam a merenda para dar às raparigas, também elas quase púberes e companheiras nas brincadeiras, como a Cristina de 10 anos (v. Genealogia 7), a Eunice de 10 anos</p>
<p>(v. Genealogia <img src='http://www.aventar.eu/aventar/wp-includes/images/smilies/icon_cool.gif' alt='8)' class='wp-smiley' /> e outras. Acontece que a irmã do pequeno Paulo, Susana, de 5 anos (v. Genealogia 6), inventou a história na qual o David, que roubava sempre as batatas para oferecer à Cristina, de quem ele gostava, o fazia para ficar com os brincos de plástico que aí vinham e, em consequência, era <em>paneleiro</em>. Proferida aos gritos, esta frase feriu a pré-adolescência de David que durante umas semanas não se atreveu a tocar nos pacotes das batatas fritas.</p>
<p>Sábia defesa da Susana, com conceitos de adultos entendidos por ela. A solidariedade e o carinho entre irmãos e primos eram sustentados pelos pais, que gostavam de levá-los às festas de adultos, bem limpos e perfumados. Todos eles tinham passado pelo jardim &#8211; de &#8211; infância e conheciam bem as histórias e as festas que aí se realizavam; de todos eles, foi o Paulo que ficou só ou que ficava só no jardim-de-infância, enquanto os irmãos e primos estavam juntos na escola próxima. A lógica do adulto que manda separar os que habitualmente vivem em conjunto, não fazia sentido para este pequeno, habituado a usufruir da união, igualdade e protecção de irmãos e primos.</p>
<p>Diferente do caso da Rita (v. Genealogia 10), essa <em>reguila</em> de cinco anos que não parava quieta entre os colegas. Era conduzida ao jardim infantil pela sua irmã Rosa ou pela própria mãe, Lídia, quando Rosa tinha horários diferentes. Rita, filha e neta de jornaleiros, era mimada e especialmente cuidada pelo seu grupo doméstico, quinteiros do homem mais rico do lugar. Nos jogos, procurava evidenciar-se em relação ao resto do grupo e reproduzia para as outras crianças gestos e ordens da educadora e da sua assistente São; esta última ficava sempre admirada do que Rita fazia e dizia, sem ser capaz de corrigi-la. A pequena Rita mandava em casa e mandava no infantário, cuja disciplina estava longe de ser a do seu lar: no seu lar, a Rita, por ser a mais pequena dos irmãos, tinha autoridade. A lógica da igualdade, que se supõe existir no grupo de pares, acabava por não ser real para ela, cuja realidade era comandar e falar constantemente, dominando assim o grupo.</p>
<p>O caso do Jorge, 4 anos (v. Genealogia 9), filho do <em>Quim</em> Beato, é diferente dos dois anteriores: tendo três irmãs, ele era o rapaz desejado pela família. A fantasia de reproduzir a masculinidade demonstrada por todos os membros estava no seu pensamento e era a sua realidade. Em casa, Jorge era cuidado por todos os membros do grupo doméstico e o jardim infantil era o sítio onde o dito grupo podia ser por ele reproduzido à vontade: calado e calmo, esperava ser servido pelos adultos e pelos mais velhos.</p>
<p>A infância trabalha com o real, ainda que não entenda o seu contexto nem o seu objectivo. Talvez tenha de dizer como Durkheim (1912) dizia daqueles que não eram adultos ocidentais, os Arunta ou Aranda da Austrália: a criança vê os resultados da acção, não entende o propósito nem a causa. O senhor leitor queira lembrar-se e comparar a sua vida infantil com a vida adulta que hoje tem: em criança, orientava-se pelo resultado; em adulto, prevê o resultado. E o que nós em antropologia denominamos o pensamento analítico, quer dizer, associativo e imaginativo para obter o seu objectivo. O Nuno (v. Genealogia 11), filho e neto de pastores de Vales, em Trás-os-Montes, surpreendeu certo dia o seu pai e o seu avô quando, olhando para eles com os seus nove anos, afirmou com determinação: “eu não quero ser pastor”. Uma frase que deixou os adultos calados e a entreolhar-se, embaraçados pela presença da equipa de antropólogos e médicos munidos de câmara fotográfica e vídeo. E embaraçados por não saberem</p>
<p>o que responder. Porque, em casa de pastores, é o trabalho que estrutura o quotidiano das relações, das conversas e dos afectos. O pai, todo envergonhado, afirmou que ser pastor é o trabalho ao qual a família sempre se dedicou; o avô paterno acrescentou que, não havendo outro trabalho, como acontecia no princípio do século, tomar conta das ovelhas de outrem era já uma sorte, lembrando que se trata de um trabalho importante e difícil, como prova o seu corpo tolhido pelo reumatismo. O Nuno tem visto que o simpático avô é incapaz de andar e que o forte pai, que tanto ama e admira, trabalha sob frio e calor, e não consegue perceber que vivam daquela forma. Ele próprio, com palavras claras e frases bem construídas, diz que ser pastor é não dormir à noite, passar frio no Inverno, estar só, não ter com quem jogar. Em conversas comigo vai contando como os outros miúdos da aldeia dos Vales dormem até tarde, comem quando conseguem <em>bica</em>r das árvores de fruto ou da cozinha da mãe, procuram esconderijos, vagueiam pelas ruas. O Nuno tem de acordar às quatro da manhã no Inverno para sair com o rebanho e acompanhar o pai até ao prado, lá longe, e voltar antes de ser noite; no</p>
<p>Verão passa a noite no campo e dorme no meio dos animais, enquanto o pai fica em casa e vai ter com ele de dia, para que possa ir à escola. O pequeno, um observador de olhos abertos e boca calada, vê tudo o que se faz na aldeia e, acima de tudo e de todos, admira o tractorista: trabalha quando não chove, quando chove pára e vai para o café jogar cartas, beber e falar, tem horário fixo, começa às nove da manhã e acaba às cinco da tarde, e vai logo para casa ou ter com os amigos. Ele quer ser tractorista.</p>
<p>Nessa profissão vê a possibilidade de fugir do seu trabalho incessante de cuidar de animais que podem ir comer às terras de vizinhos ou destruir os produtos que eles cultivam. Um descanso permanente como alternativa ao trabalho contínuo. O tractorista, seduzido pela admiração que o pequeno demonstra por ele, já o passeou na máquina. Eis, para o Nuno, uma diferença notável em relação à companhia permanente do pai, à sua autoridade e ao seu comando. O condutor do tractor, descomprometido em relação ao cuidado e ao crescimento da criança, converte-se num estímulo para o seu imaginário que idealiza uma vida mais entretida que andar só com os animais, com frio no Inverno, calor no Verão e um avô, forte como deve ter sido na sua época, agora tolhido pelo trabalho.</p>
<p>Na cabeça do Nuno não há conjunturas históricas como, por exemplo, a época em que os seres humanos eram propriedade do proprietário dos bens e, dessa forma, pela disciplina, eficácia, sacrifício do corpo acediam ao trabalho; ou a época em que, devido à emigração e à poupança, o adulto pode ser o proprietário de recursos que um dia, se quiser e for capaz, pode incrementar. O que o Nuno vê é a sua verdade construída no pragmatismo do quotidiano, no real. A vida dentro de um grupo de pastores acelera o seu desejo de fugir: o dever é o castigo que o mito dos eruditos, pregado na catequese e na homilia dominical por pessoas com autoridade, diz ser o destino do homem. O Nuno não sabe que o <em>Código de Justiniano </em>(532) definia os contratos como meio de interacção herdado pela memória social e pela lei escrita que governa até hoje, nem suspeita que foi desse código que São Tomás de Aquino definiu, no século XIII, o conceito de trabalho na <em>Summa Theologica </em>(1273), elo central das relações entre pessoas, elo central da relação consigo próprio, quer para poder subsistir quer para poder ser estimado por si e pelos outros. Para o Nuno, o trabalho é um castigo, bíblico ou não, para o seu pequeno corpo.</p>
<p>Essa é a realidade tal como se apresenta ao seu imaginário, especialmente quando toda a sua família sofre e se cansa pelo conceito central de trabalho existente entre eles desde que há lembrança. A sua genealogia (v. Genealogia 11) é clara: o trisavô era pastor, os dois irmãos do pai, pastores, quer na terra quer na vizinha Salamanca espanhola. A realidade do mito que diz “viverás do suor do teu corpo” é fundadora do seu pensamento e ideias e, claro, para o destino fatal do que será o seu futuro quando adulto: cansado como o pai, doente como o tio, ausente como o outro irmão do pai que trabalha com ovelhas em Salamanca, <em>tolhido</em> como o pai do pai que apanhou frio guardando ovelhas na neve, ou como as mulheres a fazer queijo na madrugada do Inverno nevado, a cultivar as batatas e o milho no tórrido Verão, a servirem nas refeições, no arranjo do vestuário, na cama.</p>
<p>Na terra do Miguel, o que usava a minha bicicleta às escondidas, como na do Paulo que vivia no meio do seu grupo fechado de irmãos e primos, ser pastor não constituía a única alternativa de trabalho. Há outras como a indústria e a construção civil. No entanto, o trabalho é também um conceito social de punição mítica do qual é necessário fugir para não ficar com o peso de o corpo ser alfaia. A realidade é dura para quem não entende que ela pode ser manipulada e oferece alternativas. Para todos eles, desde a República do começo do século XX, o Estado quis oferecer uma aberta, colocando meninos e meninas no sítio que ensina o saber científico, a escola. Isto é, que ensina um conceito alternativo ao mito. Mas o Estado nunca percebeu que havia uma descontinuidade entre a escola e o quotidiano, com agentes do ensino treinados para saber a verdade do livro e não a verdade do dia-a-dia que, por ser dura, faz também fugir do trabalho que faz suar o rosto. E, o Nuno, em Vales, como o Miguel e o Paulo, em Vila Ruiva, têm introdutores do real que lhes apresentam questões que não dizem respeito ao mundo que conhecem, o mundo do frio, do calor, da solidão. Como nos bairros das cidades, onde os pequenos ficam entregues à rua, ao cuidado dos vizinhos, ao da escola, ao dos adultos sem trabalho que falam e bebem nos cafés. O real adulto apresenta-se pouco fácil de entender na infância.</p>
<p>O Nuno, o Miguel, o Paulo não vêem para além do seu interesse pessoal e seu objectivo na vida, porque é característico da infância não perceber que o seu corpo, mente e experiência crescem e mudam. Como também não sabem que há um ideal social definido para eles: torná-los indivíduos autónomos, competentes e concorrenciais no meio social, com corpos disciplinados para produzir e reproduzir. A infância, que tenho estudado ao longo dos anos, organiza grupos de jogo para sair do real que não entende e para andar dentro dos seus próprios conceitos e leis de entendimento do que a vida é.</p>
<p>Com a equipa que tem trabalhado em várias aldeias portuguesas, espanholas e francesas, temos sido capazes de observar como a vida social é uma realidade que estimula o imaginário para criar a sua própria história. Quando estudo e organizo a festa de São João, em Junho, em vários sítios, os pequenos vão de caderno na mão, ter com os adultos para inquirir contos, versos, motivos, agires. A geração infantil deste fim de século não sabe que os seus adultos próximos nada sabem da festa porque nos anos 40 deste século muitos partiram para países com melhor moeda em troca de trabalho; a emigração traz o abandono da história e costumes locais. As mulheres que ficaram na terra, mães ou mais idosas, já não tinham o grupo social fechado e hierárquico que guardava a memória local da festa. A festa já não tinha objectivo. Com as crianças, andámos dias inteiros a perguntar aos adultos quem era São João. As respostas – “não sei” ou “já me esqueci” ou “um discípulo do senhor” (não o precursor do mítico redentor palestiniano do mundo pecador) – acabaram por não fazer sentido para os meninos e meninas. Mais uma vez, o pensamento analógico serviu de orientação à festa: uma fogueira foi feita para saltar, cantar e para o desabafar dos adultos. A festa, tal como era até aos anos 40 deste século, servia para entreter e distrair trabalhadores cujo imaginário estava todo dedicado a entender a estrutura do processo de produção. Lembro &#8211; me como em 1991 andámos com um dos grupos a imaginar o que dizer na noite da festa para entreter os adultos. Pouco ou nada podíamos inventar em ideias, porque não havia factos que pudessem servir de base. Foi por isso que, a imitar adultos, a criançada acabou por usar a enxada e o carro de mão, para irmos buscar rosmaninho e fazer pilhas que iriam arder à noite. O preparativo foi trabalhoso para os pequenos que iam brincando entre eles e decidindo que plantas eram para arder, que plantas eram inúteis e quem tinha mais força e empenho para cortar cada rosmaninho pela raiz. Observei que os pequenos mais habituados a ver os adultos a utilizar as alfaias comandavam os outros. Observei também a disputa entre dois rapazes, o Miguel, já referido e com mais anos de vida e disciplina, e o David, também referido, pela liderança do grupo. O Miguel, filho e neto de lavradores, oscilava entre a brincadeira e o empenho no trabalho, enquanto o David, filho e neto de emigrantes e trabalhadores na vila próxima, nada sabia fazer com a alfaia, embora tivesse a mente cheia de ideias. Como o objectivo era juntar plantas, o Miguel dizia o que fazer, enquanto o David ia ficando doente de cada vez que a sua voz não era ouvida. Em 1992, a liderança do Miguel resultou numa boa colheita de plantas, enquanto o imaginário de David foi útil para inventar os versos e para aprender a música que a televisão, ao transmitir estas festas apropriadas pelas câmaras municipais, difundia.</p>
<p>Tentei que as senhoras mais velhas se lembrassem das músicas e dos versos. Mas o contexto para elas tinha desaparecido, e a lembrança não tinha correlação com a memória; nestas circunstâncias, nem a melodia nem os versos saíam facilmente. Depois de dedicar semanas de investigação por minha conta, consegui algumas frases, canções e melodias que tive de gravar, filmar e estudar para ensinar à pequenada. Esta, mais interessada nas lutas entre os seus membros, só conseguia fazer versos para ler aos amigos ou aos mais novos, que mal podiam responder, uma maneira de os pré-púberes brincarem com as raparigas de quem gostavam – por meio de ofensa, que é o estímulo da inter-relação. Crianças como o Joel imaginam um São João retirado de aventuras relatadas nos livros de contos e no imaginário televisivo – desenhando aventuras que nada tinham a ver com o que tinha sido a festa. Só o Hélder, gentil e imaginativo como é habitual, com a sua cara de palhaço e a sua alegria exuberante, conseguiu definir para o grupo a festa que queriam organizar: uma tradição da localidade feita para que o fumo limpe a roupa de traças; o corpo, de impurezas, e as casas, para onde o fumo entrava, de <em>animais que voam</em>.</p>
<p>O mesmo Hélder que na preparação da festa anual da padroeira em 1993 desfilou na procissão vestido de anjo e colaborou na decoração dos andores, já que a sua irmã era mordoma. Três gerações para um objectivo tido como tradicional (v. Leite Vasconcelos,</p>
<p>1982; Coelho, 1993; Veiga de Oliveira, 1984) desencontradas no espaço de tempo que em poucos anos fez mudar os hábitos de Portugal, como de Espanha e França, graças à abertura a outras actividades e ao fim do fechamento dentro de um espaço onde o ano era repetitivo e lembrado pelo calendário litúrgico, como já assinalei em outros textos (Iturra, 1986, 1990 <em>b</em>, 1991, 1992). A importância de aprender ciência na escola e de procurar trabalhos bem remunerados traz para dentro do grupo social uma heterogeneidade na memória que complexifica o entendimento do real para os pequenos, que só conseguem prefigurar a experiência e o futuro afirmando a confiança em si próprios e não na diversidade de alternativas que a cultura dos adultos lhes apresenta.</p>
<p>De ignorar esta influência da conjuntura no quotidiano do crescimento infantil resulta a falta de entendimento, ajudada pelo facto de se viver só para um objectivo que se tem tornado hegemónico: juntar dinheiro e também por se subsumir mais a esta actividade do que à cultura dos pais, também heterogénea.</p>

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		<title>as minhas memórias do ISCTE, hoje IUL</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 17:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[éidificio antigo]]></category>
		<category><![CDATA[lembraças]]></category>
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		<category><![CDATA[mudança]]></category>

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		<description><![CDATA[Memórias do ISCTE
Feliz começo de ano académico a todos, com ou sem nome...
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img src="http://1.bp.blogspot.com/_rtvIfehxwag/SSHGwjA7YvI/AAAAAAAAB5s/Ce9f7H_tLGA/s400/iscte2.JPG" alt="Edoficio Antigo do ISCTE" width="400" height="300" /><p class="wp-caption-text">Construido nos anos 70, hoje são mais de quatro prédos imensos</p></div>
<p>Convidado pelo Instituto de Ciências da Fundação Gulbenkian, apareci em Portugal, pela primeira vez na minha vida, em Dezembro de 1980. Vinha da Universidade de Cambridge, onde fiz os meus graus, até ser Doutor e Agregado. Ainda sou membro do Senado dessa Britânica Universidade, na qual, actualmente, trabalham a minha filha mais nova e o seu marido. Não sabia Português, mas conhecia profundamente o Galego. Tentei falar em língua luso-galaica, mal entendida entre luso – portugueses. Mudei de imediato para o inglês, a minha melhor língua, por estar relacionado com a Grã-bretanha desde os meus vinte anos (sou casado com uma inglesa e as minhas filhas são britânicas). </p>
<p>Mal soube o ISCTE da minha visita, vários membros do Instituo Gulbenkian, também docentes no ISCTE, convidaram-me para a “Escola”, como era chamado, e ali proferi uma conferência, no único anfiteatro dos anos 80 do Século passado. Foi necessário falar em luso-galaico e castelhano: os discentes não sabiam inglês, como vários docentes. As minhas palestras versavam sobre a vida rural; a Antropologia Social e histórias de povos denominados primitivos, elo da nossa ciência, especialmente sobre os seus mitos e ritos. O auditório ficou, penso eu, fascinado ao ouvir falar de povos estranhos (não africanos) e dos seus costumes, comparados com povos europeus que eu tinha analisado, durante anos, na Escócia, em França, na Galiza e os nativos do Chile. Enquanto contava histórias, ia teorizando. Os cientistas sociais gostaram da minha análise da família, todos Sociólogos, Advogados ou Gestores, para estes últimos referi especialmente como eram feitas as contas, pesos e medidas, entre etnias como os Tallensi, os Lo-Dagaba e os Lo-Wiili da antiga Costa do Ouro, hoje Ghana, e as dos Incas do Peru que para contarem fazem nós numa corda, enquanto os Mapuche do Chile<span id="more-1072239"></span></p>
<p>contam com os dedos, mas, como apenas são dez os das mãos, marcam traços na terra para não se esquecerem enquanto tornam a usar os dedos das mãos.</p>
<p>Gostaram. Eu também. Ensinava em Cambridge, onde tudo estava feito por mais de mil anos. Em Portugal, tudo para se fazer. Fui convidado a dar aulas no ISCTE e, simultaneamente, investigador da Gulbenkian. Aceitei as duas propostas e passei a trabalhar a tempo inteiro no ISCTE e a tempo parcial no Instituto de Ciência. A Gulbenkian pagava as minhas pesquisas nas aldeias do país luso: alugava uma casa ou um quarto, fui bem recebido por uma família de Nelas e pelo gentio de uma das suas aldeias, São João do Monte, primeiro, Vila Ruiva, a seguir, até aos dias de hoje.</p>
<p>A ideia era ficar apenas dois meses. Mas, a sedutora amabilidade dos portugueses transformou esses meses em trinta e um anos. Ia para Grã-bretanha e a França, onde também ensinava, como se sabe, com alguma periodicidade. Não vou nomear ninguém, não estou autorizado, somente a Família Branquinho, de Nelas, o pai era o Senhor Assistente de Notário, Albino Pais, e a sua mulher, Dona Alice Branquinho de Pais. Porquê Branquinho e não Pais? O hábito português é denominar um grupo doméstico pelo nome que melhor diferencie entre vários. Desaparecidos hoje, moram na minha memória, nos meus afectos e no meu agradecimento, especialmente os mais amigos dos oitos filhos do casal, Luís e Paula e a sua filha, Joana, como Luís Branquinho, meu estudante, que me introduziu em Nelas e na sua família, que passou a ser a minha.</p>
<p>A minha própria britânica não quis sair da Grã-bretanha e, como diz um antigo amigo meu, colega do ISCTE, passei a ser <em>pai de avião</em>.</p>
<p>O ISCTE era, nessa altura, dois corredores e dois cursos: Gestão, predominante e Sociologia a dar os primeiros passos. Coube-me a mim trazer Antropólogos e desenhar com eles um terceiro curso, o de Antropologia Social. Anos mais tarde, passou a Licenciatura, e, a seguir, nos anos noventa, a Departamento. Era um curso novo que passou a ser muito conceituado. Faltavam sítios para os que corriam a matricular-se connosco. O nosso Conselho Científico era de cinco pessoas. De facto, quatro, mas, para poder reunir, um psicólogo da Universidade Clássica aparecia no dia das reuniões. Em 1983, passou a ser desnecessário: os nossos antropólogos doutorados formaram parte da instituição que geria o saber no ISCTE. Antes, era presidido por um fundador não doutorado; mas, mal apareceram os doutorados, os simpáticos colaboradores tiveram que esperar pelo seu próprio doutoramento para serem membros do Conselho. Fundámos também o Conselho Pedagógico, com um advogado da Universidade do Porto, quem, aliviado, transferiu a missão para mim.</p>
<p>Ironicamente, por hábito Britânico, eu denominava as Professoras do Conselho, pelo apelido, sem saber que em Portugal a mulher apenas tem o nome próprio a seguir ao título. Por boa educação, as pessoas não riam, mas um membro tardio, a quem sempre estimei como um amigo da alma, ensinou-me as formas apelativas. Aprendi. Apenas que os costumes mudam e hoje em dia todos os géneros são denominados pelo cargo que desempenham e o título a seguir, com pouco espaço para pronunciar o nome.</p>
<p>Hoje em dia, é quase obrigatório o título antes, o nome … só se se lembrarem dele.</p>
<p>Escrevo estas notas no dia prévio à véspera de Natal. Deixei este dia, porque éramos tão amigos nos anos oitenta e noventa, (hoje em dia não). Apesar de depender, para sobreviver como instituição, da Universidade Técnica do Estado: o ISCTE era a nossa casa e os nossos colegas, amigos do fundo do coração, assim como vários discentes eram da nossa intimidade fraternal. De trezentos que éramos e dois corredores, passámos a ser oito mil entre docentes e discentes; de dois corredores, a cinco imensos prédios e uma Biblioteca que, com orgulho lembro, ter fundado, tendo, após dez anos de professor bibliotecário, transferido o cargo a quem o soube desenvolver.</p>
<p>Apenas uma mágoa, porque tudo o resto era divertido: levar Godelier, fundar o Seminário Unesco, enviar candidatos a doutor para trabalhar com Pierre Bourdieu, durante anos, e com Marie-Elisabet Handman no Laboratoire d’Anthropologie Social. Trabalhar juntamente com o Presidente da JNICT, hoje FCT, que o neo-liberalismo transformou numa instituição distante, que pouca intimidade guarda pelos Investigadores, e que, mal já doutorados e agregados, os estrangeiros acolhidos com glória e majestade, em menos de trinta anos são enterrados, ainda vivos e em plena actividade. É um sufoco&#8230;</p>
<p>É véspera de começar um novo ano académico. Vou esquecer e lembrar unicamente os ternos momentos desses dias, os nossos seminários, as nossas trocas com Universidades estrangeiras, com a minha casa cheia de gente&#8230;</p>
<p>As crianças crescem e esquecem. Os doutores doutorados, em crianças, cresceram e trabalhámos até à exaustão. Posso apreciar um certo interesse nos tempos passados, desnecessários hoje em dia&#8230;</p>
<p>Contudo, trocar Cambridge pelo ISCTE, foi sempre o meu grande orgulho: o que éramos e o que somos&#8230;</p>
<p>Feliz começo de ano académico a todos, com ou sem nome&#8230;</p>

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		<title>as crianças, essa pequenada que nos faz rir e manda em nós</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 09:43:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>
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		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[divertida]]></category>
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		<description><![CDATA[O que gostaria de acrescentar virá em próximos textos que estou a preparar sobre os Picunche, grupo social que tenho estudado no Chile, e no re-study, 25 anos depois, das crianças que conheci em Vilatuxe, Galiza.
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img src="http://2.bp.blogspot.com/_lSK7oZnrljU/S3_gV4P1t4I/AAAAAAAAAG8/4xJp1BcMQsM/s400/09-10-Reis-+palha%C3%A7os+046.jpg" alt="" width="400" height="300" /><p class="wp-caption-text">as crianças gostam reir e mandam em nós</p></div>
<p>Excerto da Introdução do meu livro O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral, 1ª edição, Escher, Lisboa 1997, 2ª edição, Fim de Século, Lisboa. Para alegrar a vida após tanto debate sobre política educativa&#8230;</p>
<p>“Olá padrinho!”, diz a pequena quando lhe telefono para saber dela. Uma voz entusiasta que me cumprimenta com um carinho que, certamente, aprendeu dos seus pais e avós. Pais e avós que, por seu lado, aprenderam o entusiasmo pela vida e pelas pessoas dos seus próprios pais, bem como de toda a sua ancestralidade. <span id="more-1072201"></span></p>
<p>Ou será o contrário? Será que os pais têm ensinado a pequena a exclamar o entusiasta e alegre “olá” que me enche de emotividade e de prazer e, porque não dizê-lo, de lágrimas afectivas o canto dos olhos? E canto-lhe. E ela canta-me. Trocamos cantigas em línguas diferentes. Tal qual essas outras duas pequenas, hoje adultas, académicas profissionais que, quando tinham a mesma idade daquela de quem agora falo, corriam para a cama nas noites de Inverno, bem cedo, para ouvirem as suas histórias preferidas, lidas pela voz do pai; um pai sentado na alcatifa verde que contava que o Capuchinho Vermelho saía para o bosque para bater no lobo e depois comê-lo. Versão prontamente corrigida por ambas, porque o mito não faz para elas sentido virado do avesso.<br />
A pequena do <em>olá padrinho</em> ,que também já ouviu a história ao avesso mil vezes, ri e comenta <em>tu és maluco</em>, e olha com cumplicidade para o pai. E todos rimos. Assim como, só e em silêncio, ri esse outro pai que escreve o seu livro com a filha pequena no colo, enquanto o Fidélio de Beethoven mantém quente e calmo esse bebé de dias que ouve a voz do personagem com o seu nome cantar com um timbre parecido com o da voz da mãe que o amamenta.</p>
<p>Os “Olá padrinho!”, os “pai, não é assim”, o silêncio após o pranto que permite a concentração do adulto no seu próprio texto, contam a história de como as crianças mudam a nossa existência.</p>
<p>Era com amor que eu ouvia a voz da minha própria mãe que, docemente, juntava o meu corpo ao dela e cantava a inesquecível música de Granados, especialmente uma sevilhana andaluza de 1892 que já a sua mãe lhe cantava. Essa voz que se tinha modificado, esses braços que tinham abandonado a guitarra clássica, esses dedos que tinham deixado o piano para embalar o corpo forte e novo do filho longamente esperado; ou o colo quente desse pai que, pelas tardes, guardava silêncio enquanto eu adormecia a ouvir o Concerto para Violino em Ré de Tchaikovsky. Amorosos exemplos de como a infância faz mudar o comportamento dos adultos, os quais, sem ficarem nem em público nem em privado, ao serviço ou sob o comando da pequenada, acabam por constituir essa sociedade que apaparica o doce e dinâmico imaginário do pequeno ser. Será que esta história encantada é universal?</p>
<p>II</p>
<p>Não reclamo a universalidade da doçura entre duas gerações em contacto filial. Nem todos tinham o hábito de começar os seus estudos e leituras às quatro da manhã, porque nem todos podem estudar ou possuem disciplina para os textos, nem meios para um estudo privado em casa. Na sociedade de classes em que vivemos, apenas poucos correm pelas letras escritas. Muitos acordam às quatro da manhã para ir para o trabalho que, distante de casa, espera o seu corpo que custa à fábrica, à empresa ou ao proprietário da terra meio tostão: o salário. O salário de quem podia, e até queria, ficar com a criança e cantar, rir, mimar; e que, contudo, até se consegue libertar da rigidez que a vida socioeconómica introduz no seu corpo, pelo pedido de trabalho, pelo sentimento de culpa impresso no espírito e no inconsciente, quando não se consegue levar para casa o que é devido ética e legalmente.</p>
<p>E esses mesmos adultos, submetidos a outros, acabam por andar em sonhos, fantasias e melancolias – hoje denominados depressões e rompimentos de tabus, ou histeria, neuroses, psicopatias –, sonhos, fantasias e melancolias que definem que a pequenada seja trabalhadora, autónoma e independente, sábia no ofício ou na profissão ou, com sorte, na vida doutoral, quando atinja a idade adulta ou a vida reprodutiva. Nem todos os pais entram doce e silenciosamente de manhã no quarto das crianças para acordá-las docemente com uma canção ou um poema ou um beijo. Um acordar que prepare o dia com o apoio afectivo que não fere pelo barulho. Facto que permanece não apenas na memória mas também no comportamento. A cultura manda, e a lei diz, nesta nossa fálica sociedade, que a criança deve ser um adulto muito cedo, e cedo entenda a interacção, as hierarquias, as opções, o valor do dinheiro, o valor de si próprio, para melhor se vender no mercado de trabalho. Mercado que faz dos seres humanos pessoas duras na voz, com sentimentos afastados, com um autoritarismo omnipotente; que faz acreditar que a criança nada sabe, nada entende, nada faz se nada lhe é dito, gritado e reiterado com punições. E a criança, esse futuro adulto, procura o mimo, foge para dentro do imaginário com o qual apalpa o real. Um real que os adultos actuais lhe oferecem, dentro da fantasia de opções e alternativas com as quais procuram na vida o único bem-estar que, enquanto adultos, entendem ser o melhor para as crianças: disciplina, obediência, subordinação. A ética, o melhor legado que, na sua emotividade, entendem dever entregar. E o dinheiro, definido desde o século XII como o melhor bem a possuir. Porém, a criança usa o seu imaginário entre os que sabem da sua epistemologia e prazer.</p>
<p>III</p>
<p>São estas ideias acerca da identidade epistemológica que quero desenvolver ao longo deste texto. É mais um texto onde tento usar a Antropologia da Educação para entender o processo de ensino e aprendizagem tal como acontece no quotidiano; quotidiano do qual faz parte a estrutura institucional, a Escola, que reproduz não a prática mas sim o que os doutores analisaram, o poder ideológico definiu e os filhos do povo repetem para ouvidos distraídos entre os afazeres tecnológicos exigidos na vida actual. Uma epistemologia que o adulto, impaciente, não percebe na interacção histórica e social. Muitos povos não ocidentais entendem que há etapas diferenciadas nos ciclos individuais; e é assim que vão, aprofundadamente, orientando a passagem do corpo e da mente dos mais novos para etapas mais esclarecidas da vida social. O resto do argumento desenvolvo-o ao longo do livro. O que gostaria de acrescentar virá em próximos textos que estou a preparar sobre os Picunche, grupo social que tenho estudado no Chile, e no re-study, 25 anos depois, das crianças que conheci em Vilatuxe, Galiza.</p>

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		<title>Agrupamentos Escolares</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Aug 2010 12:51:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[agrupemantos abrem]]></category>
		<category><![CDATA[debate]]></category>
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		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[escolas fecham]]></category>

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		<description><![CDATA[Aja Deus que faça entender estas palavras ao Bispo de Lamego: a solidão das crianças sem concentração de escolas, condena o futuro adulto a um não entendimento da vida social E a palavra de um Bispo, especialmente de Lamego, tem o poder atribuído pelos homens de fé, ao Espírito Santo.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img src="http://1.bp.blogspot.com/__MMRy279Lto/Sd-I_6KMICI/AAAAAAAAFW4/AxIka_9tTyg/s400/espirito_santo2.jpg" alt="" width="400" height="252" /><p class="wp-caption-text">quem sabe é quem decide e não um pombo</p></div>
<p>Continuação do meu artigo intitulado <em>Senhor Primeiro-Ministro</em> publicado em 23 de Junho último.</p>
<p>Transferir-se de um país para outro, nem simples nem fácil. Sim Senhor, bem sei que falta o verbo dentro da frase anterior, mas está escrito propositadamente. É uma frase de final de decisão. Na Grã-Bretanha não tinha mais nada a fazer, excepto educar as minhas catraias, que estavam já educadas. E caso fosse necessário, bastava apenas apanhar um avião e resolver os problemas, como fiz, ou traze-las para Portugal, como também fiz. A vida debruçava-se entre dois pontos. Dois pontos diferentes entre si. Como tenho reiteradamente dito, no Reino Unido estava tudo feito na vida escolar e académica, em Portugal tudo estava para ser feito. Pareceu-me que era o meu destino, ficar em Portugal. O que acabou por acontecer até ao dia de hoje.<span id="more-1072194"></span></p>
<p>Nenhuma decisão deve ser tomada de forma precipitada e sem dados. Percorri o país todo antes de optar e encontrei a minha tarefa: a educação. Folheei livros, falei com especialistas, andei nos arquivos, pernoitei em aldeias e, nestas andanças, reparei que havia sítios em que a escola era uma casa pequena, apenas com uma pessoa a ensinar e quatro ou cincos discentes a aprender, todos de diferentes cursos. A docente (eram sempre senhoras) que encontrava em sítios tão afastados e solitários, a adrenalina, típica dos Senhores, não lhe permitia andar entre poucos estudantes, mas, o docente, precisava sempre de uma claque que o apoiasse e lhe dissesse que era o maior, que era quem mais sabia, especialmente fácil de entender e que sabia tanto de bola, como de geografia. O que esses meninos e meninas não sabiam, era que ele lia os livros de ensino antes deles, ou liam juntos o que ele não sabia e os discentes, também não. Escolas todas que ficavam fora da aldeia, no meio de um mato húmido, que nos servia de base para passearmos enquanto aprendíamos a botânica conhecida pelos mais novos. Esses novos que não sabiam os títulos que os livros de ciência, escolhidos pela burocracia do Ministério, mandavam estudar.</p>
<p>Visitei os sítios mais isolados do país, tal como escolas da Grande Lisboa, do Alentejo e do Algarve rural; aceitei, também, convites especiais de escolas secundárias. Desiludido  pelas palavras comuns, por mim usadas para cativar a audição dos estudantes. Pedia-lhes, a título de exemplo, que me explicassem o que era a poda de uma videira, de uma oliveira ou de uma alfarrobeira, quais as diferenças no tratamento dos animais e, perto do fim, fazia uma lista com as palavras-chaves que o Ministério mandava aprender. Para, depois, irem para a Universidade ou para o desemprego, ou voltarem à terra para nela trabalharem, como intitulo um dos meus livros dos anos 90, do século passado.</p>
<p>Visitei os sítios que os meus orientados de teses de pós graduação, trabalhavam com os estudantes, a quem transmitiam, com palavras simples e no local, o que era preciso fazer com a natureza, como se construíam as casas, a classificação das plantas e, simultaneamente, tomavam notas das palavras usadas por eles para entenderem esse entendimento do real por meio de palavras vulgares. Como Amélia Frazão Moreira fez em Cotas, aldeia de Vila Real, na qual morava, recorrendo ao nosso método de observação participante. Quem mais aprendeu, foi ela. Como Berta Nunes em Os Vales, Alfândega da Fé. Como muitos de nós, na escola de Vila Ruiva. Excepto Humberto Telmo Lapa Caria que, com santa paciência, ao longo de um ano, observou como os professores ensinavam numa escola C +S.</p>
<p>Em todas elas deparei-me com o mesmo quadro. Era desolador. A inexistência de interacção com estudantes da cidade ou de outras escolas da mesma vila. O que fizemos foi levar os nossos estudantes, com o prévio acordo de docentes de escolas da cidade, para assistirem às suas aulas. Mas a timidez dos nossos era tão grande, que o ensaio foi suspenso. Era necessário entrar pela porta grande de uma matrícula, residir perto da escola, visitar as casas de amigos e parentes, andar nas ruas cheias de carros e aprender a forma citadina de designar as coisas e os seus elementos.</p>
<p>O Senhor Bispo de Lamego está preocupado com esse encerramento de escolas com poucos estudantes. O Senhor Bispo não repara que a interacção com meninos/as de outros sítios, abre as portas ao entendimento e não retira o amor aos pais, que continuam a ser os mesmos, abrindo, sim, as portas a outro tipo de sentimentos. Porque a vida de vila, aldeia e cidade, é diferente. A concorrência em «concentrações escolares» cria uma procura pelo mais alto valor da nota, orienta as crianças de fora a entenderem formas novas de falar e de se pensarem e verem dentro da sua família: não separa, junta e ensina entre pares. O mais duro pode ser esse envergonhamento que aparece ao comparar pais rústicos, com pais com carro e fatos.</p>
<p>Mas, não é isso o que a educação procura, uma corrida ao lucro e à mais-valia, que as escolas pequenas não podem ensinar e os residentes da aldeia, por serem jornaleiros, não entendem?</p>
<p>O Senhor Bispo de Lamego devia ouvir Ratzinger, como ler Wojtila e entender que, embora seja pecaminosa, a corrida ao capitalismo é o objectivo infeliz da nossa sociedade. Ratzinger louva Marx no seu livro de 2007: <em>Jesus de Nazaré</em>, por ter sido o único cientista a entender a alienação que causa o capital, mas nenhum dos dois Papas entendem que o socialismo é o que pode ensinar a igualdade e a solidariedade, sem punição nem pecado, como dizem os seus textos, chamados catecismos. Acabam por condenar o capitalismo pelo lucro, e o socialismo, por ateu.</p>
<p>Até onde eu entenda, nem um nem outro se pronuncia sobre os conteúdos ideológicos. Bem ao contrário, temos um socialismo solidário pelas causas dos trabalhadores, e um capitalismo, como dizem Marx e Ratzinger, que aliena. Como é essa alienação de viver sempre encerrado numa aldeia, sem colegas para debater o que se estuda.</p>
<p>Confio no que fazem os nossos órgãos de soberania: sabem os seus objectivos, e, em curto prazo, querem fazer de Portugal uma Holanda e uma Galiza rural urbana.</p>

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		<title>gracinha</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 16:14:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[agradecido]]></category>
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		<description><![CDATA[Amo-te, é a tua frase favorita. Lã vai, entre o calor, os incêndios postos, os delitos, acidentes: as penas, enfim, e as alegrias…]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6f/C._Van_Loo_-_Les_Trois_Gr%C3%A2ces.jpg/300px-C._Van_Loo_-_Les_Trois_Gr%C3%A2ces.jpg" alt="" width="300" height="381" /><p class="wp-caption-text">minha maria da graça</p></div>
<p><em>As Três Graças</em>, de Carle Van Loo (<a title="1763" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1763" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/1763?referer=');">1763</a>)</p>
<p>….para Graça Pimentel Lemos…</p>
<p>Todos sabemos que existe, na mitologia grega, três deusas chamadas Graças.</p>
<p>As <strong>Graças</strong> (<em>Cárites</em> na <a title="Mitologia Grega" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_Grega" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_Grega?referer=');">Mitologia Grega</a>) são as <a title="Deus" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Deus" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Deus?referer=');">deusas</a> da <a title="Dança" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Dan%C3%A7a" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Dan_C3_A7a?referer=');">dança</a>, dos modos e da graça do amor, são seguidoras de <a title="Vênus (mitologia)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%AAnus_(mitologia)" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/V_C3_AAnus_mitologia?referer=');">Vênus</a> e dançarinas do <a title="Olimpo" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Olimpo" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Olimpo?referer=');">Olimpo</a>.</p>
<p>Apesar de pouco relevantes na mitologia greco-romana, a partir do Renascimento as Graças se tornaram símbolo da idílica harmonia do mundo clássico.</p>
<p>Graças, nome latino das Cárites gregas, eram as deusas da fertilidade, do encantamento, da beleza e da amizade. Ao que parece seu culto se iniciou na Beócia, onde eram consideradas deusas da vegetação. O nome de cada uma delas varia nas diferentes lendas. Na Ilíada de Homero aparece uma só Cárite, esposa do deus Hefesto.</p>
<p>Este meu saber sobre os mitos gregos, adquirido aos sete anos de idade, estava baseado nos originais em língua inglesa, nos escritos de Homero, citado antes, e em Flávio Josefo.</p>
<p><span id="more-1072130"></span></p>
<p>Conheci uma Gracinha, cai por ela pela graça do seu amor.</p>
<p>Estive mal durante um certo tempo. Não havia semana em que eu não recebera uma mensagem a perguntar pela minha saúde. Era da Graça dos modos e do amor.</p>
<p>Não posso negar que esperava com uma certa ansiedade essa mensagem que, finalmente, sempre aparecia. Era à distância, era cortesia, era de uma simpatia sem reproche: curto, profundo, directo ao assunto.</p>
<p>Sem saber, a vi um dia na minha festa dos livros de Outubro de 2008. Ocorreu-me solicitar um favor a quem eu chamo Gracinha. Pensava que podia. Uma gracinha é favor, benevolência, chiste, gracejo.</p>
<p>E as graças foram-me concedidas. No meio do meu tormento de doenças que, sem querer eu, me aconteciam. Nunca disse nada, não abria boca para me queixar.</p>
<p>A graça que eu solicitava era uma opinião sobre um texto meu e se podia colaborar comigo em fixar a minha sintaxes de meu horror de língua portuguesa, que aprendi, como quarta língua, na vida adulta. E a Gracinha concedeu-me essa graça e várias mais.</p>
<p>Não havia texto meu que ela não dera novas ideias, colocara direito o que era o denominado português <em>iturriano</em>, uma mistura das cinco línguas que uso para trabalhar, comunicar, dizer, amar. Transferir as minhas emoções íntimas a quem faz todo por mim.</p>
<p>Devo dizer que essas doenças tinham acontecido para a minha desgraça e esse humor da Gracinha, aprendeu a ter paciência, apesar de ser muita curta a sua, especialmente se é acordada as horas não devidas.</p>
<p>Natural! É a menina mais nova de uma família de três raparigas só raparigas: Odete, Luz, e essa surpresa não esperada que, sem dar por isso um dia, os seus pais fizeram: a Graça da dança, do amor, do gracejo, a do dom sobrenatural, como meio de salvação ou satisfação. Quando está de bom humor, esse&#8230;</p>
<p>Mais nada digo. Bem sabemos que os mitos gregos são lições de comportamento dos sábios, como Esquilo e Sófocles, aos que devo esta simpatia de me lembrar dessas histórias antigas, que me permitem render homenagem a minha Graça, que me acompanha em todos os apertos mais duros deste dois recentes anos da minha vida.</p>
<p>Amo-te, é a tua frase favorita. Là vai, entre o calor, os incêndios postos, os delitos, acidentes: as penas, enfim, e as alegrias…</p>
<p>Agradeço a tua companhia, eternamente…</p>

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		<title>médico</title>
		<link>http://www.aventar.eu/2010/08/23/medico/</link>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 15:00:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[curar]]></category>
		<category><![CDATA[dar la vida]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[porto]]></category>
		<category><![CDATA[sacrificar decanso]]></category>

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		<description><![CDATA[Agradezco. Sin médico estamos perdidos.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 370px"><img class=" " src="http://www.batalha.com.br/2010/sportcenter/webapps/imagefile/arquivos/medico.jpg" alt="" width="360" height="240" /><p class="wp-caption-text">el trabajo más abnegado y sacrificado del mundo</p></div>
<p>….para Joker….</p>
<p>Este substantivo adjetivado, es siempre atribuido a una persona masculina. Pero, por las nuevas leyes que nos rigen, médico puede ser masculino o femenino. Nos curan, saben de nosotros más do que lo que nosotros de ellos, la conversación es siempre la misma: como está nuestra salud, como nos sentimos, si estamos alegre  o no, si seguimos sus orientaciones para mejorar nuestros males, si…si…, tantas interrogaciones, que nos sentimos pequeños, casi bebés, aun cuando seamos adultos mayores.<span id="more-1072005"></span></p>
<p>Puedo decir que tengo suerte. No apenas tengo una familia de médicos, bien como yo propio curo las molestias que puedan causar las ideas en la mente de las personas, mente, esa parte del cuerpo en donde reside nuestra inteligencia, nuestras ideas nuestra capacidad de interaccionar o no, con otro. Suerte también, porque mi médico de familia no apenas sabe mucho, está convidado a todos los congresos de su especialidad, sabe saber, saber hablar, saber lucir. Cura. Como también entiende que escriba este texto al eterno sonido de BWV 825, esa partita  número 1 de Bach que, oída siempre y eternamente  con el son bajo, inspira mis ideas, cuando redacto textos como éste, que no necesitan ni prueba ni hipótesis. S las precisaran, el silencio del escritor sería interrumpido apenas por el ruido de los archivos, de los textos que busco para apoyar mis ideas, de las cuentas necesarias de hacer para usar ese horror de pruebas, llamadas estadísticas.</p>
<p>La única que, en el caso que escribo, me es aceptable es esa de si hay buenos o malos médicos, serios en la consulta, alegres y parlanchines o siempre a gastar bromas a los otros, después del silencio de la consulta.</p>
<p>Es mi clase de médico, que gusta si no de Bach, de tecno, rock, jazz que oye cuando no lee para saber más y progresar en su carrera.</p>
<p>Estoy muy agradecido a mi médico de familia. Precisaba de él ayer, y me atendió, suspendiendo su descanso, porque sabe de mi ansiedad por estar siempre bien.</p>
<p>No se vestirá como Ronaldo al estilo Armani, pero sí el estilo Dior, que es bien más elegante, o a su propio estilo, que es el mejor. Da para imitar…</p>
<p>Es temprano de mañana, estará haciendo banco en el hospital, fue llevado a mí por mi mujer, que ofreció su casa como consultorio  y hasta comida nos preparó. Mi médico comió con un apetito voraz y supo diferenciar esa hora de consulta, a las bromas del almuerzo y a la piscina donde él quedó, mientas yo volvía a casa por las ruedas del carro de María Llena de Gracia.</p>
<p>Lo que falta por hacer desde hoy, es un horror de análisis, hasta quedar bien.</p>
<p>Médico, es ser sabio, calmo y sereno. El mío és así y estoy muy agradecido. Bajo sus alas me cobijo, me da calma y serenidad,</p>
<p>No estoy a escribir en su idioma, pero se que también entiende este, uno de ls varios que usa.</p>
<p>Bue congreso, mientras preparo mis análisis clínicos. Ayúdeme, avasálleme, cúreme.</p>
<p>Su eterno y agradecido cliente lo que estima de si, más que medico, amigo, relación esencial para la cura. Como lo he estudiado entre los Picunche, los Melanesios de la Guiné Bissau, los Mohave, los Baruya, los Massim, los Sambia, los Aymara, los Pascuenses y ente nosotros una particular etnia que busca amparo y esperanza.. y lo que queda de los Inca, hoy llamado Quechuas.</p>
<p>Agradezco. Sin médico estamos perdidos.</p>
<p>Bach pasó del movimiento en si bemol, para la Suite Inglesa 3, BWV 808 e sol menor. Es una síntesis de varias piezas que iría gustar mucho, como gusté ayer del atendimiento que me hizo….</p>

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		<title>mis nietos</title>
		<link>http://www.aventar.eu/2010/08/20/mis-nietos/</link>
		<comments>http://www.aventar.eu/2010/08/20/mis-nietos/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 20 Aug 2010 17:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raul Iturra</dc:creator>
				<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[abuelos]]></category>
		<category><![CDATA[aprender]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[nietos]]></category>
		<category><![CDATA[paciéncia]]></category>

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		<description><![CDATA[Amo a los míos, profundamente, y en cuánto más viejo, y ellos más crecidos, los respeto más. Es en el respeto a los pequeños es que está el secreto de la cercanía amorosa que tenemos y sentimos por ellos.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><img class=" " src="http://www.acudeservicios.es/imagenes/abuelo-y-nietos.gif" alt="abuelo-y-nietos.gif" width="600" height="400" /><p class="wp-caption-text">como aprender siendo abuelo</p></div>
<p>Los vi ese día, todos ellos juntos, a hablarme por es maravillosa máquina llamada Skype. No son muchos, eran cuatro, uno se perdió al nacer, ese pequeño de una hora, que ahora vive en nuestras emociones y sentimientos. Como los otros tres, que están en nuestra presencia cuando es posible, y se pelean entre ellos para hablar con el Grand Pa, Oppa Daddy o el Abuelo, depende de su lugar de nacimiento y del idioma que hablen.<span id="more-1071969"></span></p>
<p>Los míos, los nuestros, porque sin abuela no puede haber nietos, son, metafóricamente hablando, una ensalada, por dos motivos: porque abuelos somos siempre parientes no consanguíneos, el matrimonio crea una relación de afinidad, de simpatía, Parentesco que mediante el matrimonio se establece entre cada cónyuge y los deudos por consanguinidad del otro. . Impedimento dirimente derivado de tal parentesco. Es decir, como he definido en otros textos míos, la afinidad crea una prohibición de relación íntima ente los parientes de uno de los cónyuges, con el otro en cuestión. Hasta donde recuerde de mis estudios para ser abogado, es crimen la relación entre los consanguíneos de uno que casa con otro y los parientes de ese uno o una; o de ese uno-uno o esa una – una. Hablar de matrimonio hoy en día, crea el deber de una explicación, desde que el divorcio pasó a ser simple y directo, divorcio que deshace los vínculos del parentesco por afinidad y perite las relaciones de amor entre los antiguos parientes al pasar a ser una realidad los impedimentos dirimentes entre los nuevos parientes de la nueva pareja, siendo los divorciados los no parientes por afinidad con los parientes consanguíneos anteriores. Sin embargo, la relación consanguínea continúa a ser un impedimento impediente para relaciones de procreación. El  parentesco consanguíneo, nos hay divinidad que lo pueda deshacer: los abuelos divorciados siguen siendo los ancestrales de los mismos nietos, a los que se agregan, por cortesía o amor, la nueva</p>
<p>persona que, por contrato, entre en la familia. Apenas que esos nietos pasan a tener más abuelos: los consanguíneos, y los nuevos, frutos del casamiento de la persona divorciada, con la nueva que entra en la familia  La única relación posible es entre marido y mujer, que no genera lazos de parentesco, antes por el contrario, crea una relación no parental  que permite la intimidad para criar hijos. Hijos de los cuales nacen después, los nietos.</p>
<p>Hablar de nietos parece un tema simple y simpático, pero es muy complicado. Hablaba, antes de desgarrar el texto para el contrato de matrimonio – con el sacramento del casamiento ni voy a entrar, remito al lector para otros textos míos, especialmente el que escribimos con Pierre Bourdieu en 1989 en  <em>Études Rurales</em>, Enero-Febrero, Nº 113-114, editado por el <em>Laboratoire d’Antropologie  Sociale, Collège de France</em>, Paris, y otros, también en Francia – porque el sacramento crea un impedimento impediente que solo los Patriarcas de las diversas confesiones del mundo, pueden dirimir, si se paga y bien caro, como está escrito en el Código de Derecho canónico, no en la versión de 1911, en la promulgada por Karol Wojtila en 1983 – hablaba, decía yo, de las genealogías de los nietos, que me parece una ensalada rusa, que tiene de todo un poco.</p>
<p>Si los nietos tienen cuatro abuelos, es necesario atender a la filiación de cada uno de ellos. Hay los que tienen apenas una línea, como mis nietos británicos, y apenas por la filiación paterna, hasta donde yo sepa de la vida de mi yerno; por el lado de la filiación materna, hay los hispánicos, los franceses, los chilenos, los vascos que son una hispanidad diferente y autónoma, como también los de Segovia, que fueron llevados en el Siglo XV por los Reyes Fernando de Aragón, y de Isabel de Castilla, para poblar el sur de la península, una vez que los moros fueron esclavizados o exiliados, o se convirtieron al cristianismo por ser más conveniente ser súbditos de las Monarquías de la Península, que estaban entrelazadas por matrimonios entre los luso portugueses, los luso galaicos y las coronas de Asturias y Borgoña, Sur de Francia.</p>
<p>Los nietos son un amor de crianzas, pero tienen todas estas mezclas de genealogía. Los genes batallan entre, para simplificar, los moros y los occidentales, las rabietas que resultan de esta batahola, acaba por hacer sufrir a sus padres, que poco o nada saben del árbol genealógico, menos aún de genética o de historia de esa genética.</p>
<p>Son todos rubios, blancos y de ojos azules, pero también los hay de cabello negro como el azabache, ojos profundos y de mucha imaginación.</p>
<p>Estar con ellos, es un placer. Siempre buscan los parecidos, pero llegan apenas hasta los parientes más próximos, los que conocen, sin entrar por el carbono catorce ni por mutaciones analizadas por medios químicos, como a análisis del ADN: O <strong>ácido desoxirribonucleico</strong> (<strong>ADN</strong>, en portugués: <strong><em>á</em></strong><em>cido <strong>d</strong>esoxirribo<strong>n</strong>ucleico</em>; o <strong>DNA</strong>, en inglés: <strong><em>d</em></strong><em>eoxyribo<strong>n</strong>ucleic <strong>a</strong>cid</em>) es un <a title="Composto químico" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Composto_qu%C3%ADmico" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Composto_qu_C3_ADmico?referer=');">compuesto</a> <a title="Química orgânica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Qu%C3%ADmica_org%C3%A2nica" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Qu_C3_ADmica_org_C3_A2nica?referer=');">orgánico</a> cuyas <a title="Molécula" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mol%C3%A9cula" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Mol_C3_A9cula?referer=');">moléculas</a> contienen las instrucciones <a title="Genética" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gen%C3%A9tica" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Gen_C3_A9tica?referer=');">genéticas</a> que coordinan el desenvolvimiento y  funcionamiento de todos los seres <a title="Vivos (página não existe)" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Vivos&amp;action=edit&amp;redlink=1" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Vivos_amp_action=edit_amp_redlink=1&amp;referer=');">vivos</a> e algunos <a title="Vírus" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrus" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/V_C3_ADrus?referer=');">virus</a>.</p>
<p>¿Será que es interesante para saber nuestra propia formación genética, o la de nuestros ascendientes y descendientes? ¿Será que será dl todo, interesante?  Me parece que sí. Los comportamientos conductistas, creados por Skinner, esos de castigar, enojarse, enseñar, no me parecen que llevan a ninguna parte. En mi parecer, pienso que entender el comportamiento con el famoso ADN, no nos hace amar menos a nuestros nietos, pero sí nos lleva a comprenderlos.</p>
<p>Hay, con todo y después de haber dicho todo lo anterior, un camino bien más corto y difícil: ser paciente, cariñoso, entender el contexto en que las rabias de nuestros nietos se producen y no quejarse por eso.</p>
<p>Una cosa sí que me parece que debe estar siempre prohibida: castigar, pegar, hacer muescas de su comportamiento. Y besar, besar mucho, interesarse por lo que hacen nuestros nietos, oírlos e pedir, como un tonto, que nos expliquen un por qué: así pasamos a ser nosotros los nietos y ellos los abuelos, con un fuerte sentido de superioridad de la parte del nieto.</p>
<p>Y es así que hago, como no dar atención a los descalabros, y nuestros se tranquilizan.</p>
<p>Amo a los míos, profundamente, y en cuánto más viejo, y ellos más crecidos, los respeto más. Es en el respeto a los pequeños es que está el secreto de la cercanía amorosa que tenemos y sentimos por ellos.</p>
<p>Y paro aquí. Si no lo hago, voy a repetir un libro, o varios de ellos, que he escrito sobre cómo se debe tratar a los niños….</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; text-indent: 35.45pt; margin: 0cm 0cm 10pt;"><span lang="ES-TRAD">Los vi ese día, todos ellos juntos, a hablarme por es maravillosa máquina llamada Skype. No son muchos, eran cuatro, uno se perdió al nacer, ese pequeño de una hora, que ahora vive en nuestras emociones y sentimientos. Como los otros tres, que están en nuestra presencia cuando es posible, y se pelean entre ellos para hablar con el Grand Pa, Oppa Daddy o el Abuelo, depende de su lugar de nacimiento y del idioma que hablen.</span></p>
<p><span lang="ES-TRAD">Los míos, los nuestros, porque sin abuela no puede haber nietos, son, metafóricamente hablando, una ensalada, por dos motivos: porque abuelos somos siempre parientes no consanguíneos, el matrimonio crea una relación de afinidad, de simpatía, </span><span lang="ES">Parentesco que mediante el matrimonio se establece entre cada cónyuge y los deudos por consanguinidad del otro. </span><a name="0_4"></a><span lang="ES">. Impedimento dirimente derivado de tal parentesco. Es decir, como he definido en otros textos míos, la afinidad crea una prohibición de relación íntima ente los parientes de uno de los cónyuges, con el otro en cuestión. Hasta donde recuerde de mis estudios para ser abogado, es crimen la relación entre los consanguíneos de uno que casa con otro y los parientes de ese uno o una; o de ese uno-uno o esa una – una. Hablar de matrimonio hoy en día, crea el deber de una explicación, desde que el divorcio pasó a ser simple y directo, divorcio que deshace los vínculos del parentesco por afinidad y perite las relaciones de amor entre los antiguos parientes al pasar a ser una realidad los impedimentos dirimentes entre los nuevos parientes de la nueva pareja, siendo los divorciados los no parientes por afinidad con los parientes consanguíneos anteriores. Sin embargo, la relación consanguínea continúa a ser un impedimento impediente para relaciones de procreación. El<span> </span>parentesco consanguíneo, nos hay divinidad que lo pueda deshacer: los abuelos divorciados siguen siendo los ancestrales de los mismos nietos, a los que se agregan, por cortesía o amor, la nueva </span>persona que, por contrato, entre en la familia. Apenas que esos nietos pasan a tener más abuelos: los consanguíneos, y los nuevos, frutos del casamiento de la persona divorciada, con la nueva que entra en la familia  La única relación posible es entre marido y mujer, que no genera lazos de parentesco, antes por el contrario, crea una relación no parental  que permite la intimidad para criar hijos. Hijos de los cuales nacen después, los nietos.</p>
<p>Hablar de nietos parece un tema simple y simpático, pero es muy complicado. Hablaba, antes de desgarrar el texto para el contrato de matrimonio – con el sacramento del casamiento ni voy a entrar, remito al lector para otros textos míos, especialmente el que escribimos con Pierre Bourdieu en 1989 en  <em>Études Rurales</em>, Enero-Febrero, Nº 113-114, editado por el <em>Laboratoire d’Antropologie  Sociale, Collège de France</em>, Paris, y otros, también en Francia – porque el sacramento crea un impedimento impediente que solo los Patriarcas de las diversas confesiones del mundo, pueden dirimir, si se paga y bien caro, como está escrito en el Código de Derecho canónico, no en la versión de 1911, en la promulgada por Karol Wojtila en 1983 – hablaba, decía yo, de las genealogías de los nietos, que me parece una ensalada rusa, que tiene de todo un poco.</p>
<p>Si los nietos tienen cuatro abuelos, es necesario atender a la filiación de cada uno de ellos. Hay los que tienen apenas una línea, como mis nietos británicos, y apenas por la filiación paterna, hasta donde yo sepa de la vida de mi yerno; por el lado de la filiación materna, hay los hispánicos, los franceses, los chilenos, los vascos que son una hispanidad diferente y autónoma, como también los de Segovia, que fueron llevados en el Siglo XV por los Reyes Fernando de Aragón, y de Isabel de Castilla, para poblar el sur de la península, una vez que los moros fueron esclavizados o exiliados, o se convirtieron al cristianismo por ser más conveniente ser súbditos de las Monarquías de la Península, que estaban entrelazadas por matrimonios entre los luso portugueses, los luso galaicos y las coronas de Asturias y Borgoña, Sur de Francia.</p>
<p>Los nietos son un amor de crianzas, pero tienen todas estas mezclas de genealogía. Los genes batallan entre, para simplificar, los moros y los occidentales, las rabietas que resultan de esta batahola, acaba por hacer sufrir a sus padres, que poco o nada saben del árbol genealógico, menos aún de genética o de historia de esa genética.</p>
<p>Son todos rubios, blancos y de ojos azules, pero también los hay de cabello negro como el azabache, ojos profundos y de mucha imaginación.</p>
<p>Estar con ellos, es un placer. Siempre buscan los parecidos, pero llegan apenas hasta los parientes más próximos, los que conocen, sin entrar por el carbono catorce ni por mutaciones analizadas por medios químicos, como a análisis del ADN: O <strong>ácido desoxirribonucleico</strong> (<strong>ADN</strong>, en portugués: <strong><em>á</em></strong><em>cido <strong>d</strong>esoxirribo<strong>n</strong>ucleico</em>; o <strong>DNA</strong>, en inglés: <strong><em>d</em></strong><em>eoxyribo<strong>n</strong>ucleic <strong>a</strong>cid</em>) es un <a title="Composto químico" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Composto_qu%C3%ADmico" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Composto_qu_C3_ADmico?referer=');">compuesto</a> <a title="Química orgânica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Qu%C3%ADmica_org%C3%A2nica" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Qu_C3_ADmica_org_C3_A2nica?referer=');">orgánico</a> cuyas <a title="Molécula" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mol%C3%A9cula" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Mol_C3_A9cula?referer=');">moléculas</a> contienen las instrucciones <a title="Genética" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gen%C3%A9tica" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Gen_C3_A9tica?referer=');">genéticas</a> que coordinan el desenvolvimiento y  funcionamiento de todos los seres <a title="Vivos (página não existe)" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Vivos&amp;action=edit&amp;redlink=1" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Vivos_amp_action=edit_amp_redlink=1&amp;referer=');">vivos</a> e algunos <a title="Vírus" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrus" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/V_C3_ADrus?referer=');">virus</a>.</p>
<p>¿Será que es interesante para saber nuestra propia formación genética, o la de nuestros ascendientes y descendientes? ¿Será que será dl todo, interesante?  Me parece que sí. Los comportamientos conductistas, creados por Skinner, esos de castigar, enojarse, enseñar, no me parecen que llevan a ninguna parte. En mi parecer, pienso que entender el comportamiento con el famoso ADN, no nos hace amar menos a nuestros nietos, pero sí nos lleva a comprenderlos.</p>
<p>Hay, con todo y después de haber dicho todo lo anterior, un camino bien más corto y difícil: ser paciente, cariñoso, entender el contexto en que las rabias de nuestros nietos se producen y no quejarse por eso.</p>
<p>Una cosa sí que me parece que debe estar siempre prohibida: castigar, pegar, hacer muescas de su comportamiento. Y besar, besar mucho, interesarse por lo que hacen nuestros nietos, oírlos e pedir, como un tonto, que nos expliquen un por qué: así pasamos a ser nosotros los nietos y ellos los abuelos, con un fuerte sentido de superioridad de la parte del nieto.</p>
<p>Y es así que hago, como no dar atención a los descalabros, y nuestros se tranquilizan.</p>
<p>Amo a los míos, profundamente, y en cuánto más viejo, y ellos más crecidos, los respeto más. Es en el respeto a los pequeños es que está el secreto de la cercanía amorosa que tenemos y sentimos por ellos.</p>
<p>Y paro aquí. Si no lo hago, voy a repetir un libro, o varios de ellos, que he escrito sobre cómo se debe tratar a los niños….</p>

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