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	<title>Aventar &#187; como se fora um conto</title>
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	<description>Expor ao vento. Arejar. Segurar pelas ventas. Farejar, pressentir, suspeitar. Chegar.</description>
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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; Para Estes Não Há Funerais de Estado</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Aug 2010 13:28:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Conheci-a num Centro Comercial. Vendeu-me alguns artigos de que eu necessitava e alguns outros que eu não sabia que queria. A sua simpatia era contagiante e o seu sorriso alegrava a alma. A conversa, essa, veio naturalmente, e ficamos como que amigos. Fiquei a saber que o trabalho era bom e gratificante, que gostava do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Conheci-a num Centro Comercial. Vendeu-me alguns artigos de que eu necessitava e alguns outros que eu não sabia que queria. A sua simpatia era contagiante e o seu sorriso alegrava a alma.</p>
<p style="text-align: justify;">A conversa, essa, veio naturalmente, e ficamos como que amigos. Fiquei a saber que o trabalho era bom e gratificante, que gostava do que fazia e que fazia o que gostava. Só tinha vinte anos mas já trabalhava há perto de quatro. Por incapacidade económica não tinha estudado mais que até ao fim do ensino obrigatório. Talvez que um dia continuasse. Por agora, sentia-se bem assim. Estava a subir na carreira de &#8216;balconista&#8217;, e até já mandava em parte da sua secção. Para além disso, tinha outros interesses que lhe tomavam todo o tempo disponível.<span id="more-1071898"></span> Era bombeira voluntária. Andava nas ambulâncias a transportar doentes de e para os hospitais, e também no terreno a apagar os fogos que outros atearam em terrenos que não eram dela. E era assim, porque queria que assim fosse. Sentia-se bem a fazer o bem à comunidade, e como ela, havia mais umas quantas na sua corporação. Não era a única bombeira.</p>
<p style="text-align: justify;">No Sábado anterior, tinha saído do seu trabalho pelas dez da noite, dirigiu-se a casa, pegou na farda e foi para o quartel, de onde seguiu para o Gerês. Foi ajudar a apagar o fogo que já lavra há muitos dias por aquelas bandas. Regressou perto das quatro da manhã e às dez, já estava de novo no seu posto de trabalho, no Centro Comercial, uma vez que o seu horário, rotativo, implicava estar lá à abertura da loja. As dificuldades superam-se quando outros valores mais elevados aparecem, disse-me.</p>
<p style="text-align: justify;">Não lhe perguntei pelas motivações que a levavam a fazer o que faz. Não sei que exemplos familiares os de amigos a levaram a enveredar por aquele caminho. Não lhe perguntei pelo medo que teria muitas vezes de sentir, ao ver-se rodeada de labaredas, ou se valia a pena tanto sacrifício. Falou-me disso e do seu voluntariado como bombeira, com o à vontade e a naturalidade de quem se sente bem consigo mesma, e com orgulho, como se fosse um objectivo de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Lembrei-me da bombeira Josefa, morta enquanto combatia o fogo ateado por fanáticos intolerantes ignorantes e básicos a mando de energúmenos, e do silêncio a que os bombeiros, na sua generalidade são votados. Ninguém lhes reconhece o valor, nem tão pouco o sacrifício individual e anónimo mas esperamos sempre que cumpram a sua “obrigação”. Só nos lembramos deles em alturas de aflição, ou quando são notícias de jornais e televisões pelos piores motivos, quando se aleijam gravemente ou quando morrem durante o combate às chamas. E estes homens e mulheres só lá estão por dedicação social, nunca pelo que recebem ou podem vir a receber em termos económicos. Mesmo assim, para estes, os que morrem, não há funerais de estado, não se dá o seu nome a ruas, não se ouvem discursos laudativos dos políticos, nem há pensões gordurosas e vitalícias para os seus familiares.</p>
<p style="text-align: justify;">Quantos de nós seríamos capazes de dar tanto da nossa vida aos outros, sem reconhecimento que não seja o de sabermos que cumprimos com o que consideramos que é de direito, seja qual for o voluntariado a que nos dediquemos, bombeiros, ajudantes e acompanhantes de doentes, tratamento dos sem abrigo e de tóxico-dependentes, ou quaisquer outros.</p>
<p style="text-align: justify;">A minha nova amiga merece tudo o que de bom lhe possa acontecer na vida. Guarda os seus momentos de lazer num lugarzinho pequeno e arrumado, gastando o seu tempo livre em proveito da comunidade com a simplicidade que só alguns, bons, conseguem.</p>

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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; A Minha Tristeza e a Dona Ana da Casa Grande</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 10:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[Se estiver triste ou alegre ou se se sentir assim-assim, ou ainda se estiver mais sensível do que de costume, não leia. Esta é uma história penosa. . É quase noite e é forte, a dor da tristeza. É sempre assim, não importando a razão porque se está triste. Desta vez em nada é diferente. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Se estiver triste ou alegre ou se se sentir assim-assim, ou ainda se estiver mais sensível do que de costume, não leia. Esta é uma história penosa.</strong></p>
<p><strong><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
</strong></p>
<p style="text-align: justify;">É quase noite e é forte, a dor da tristeza. É sempre assim, não importando a razão porque se está triste. Desta vez em nada é diferente. Estou triste, e o tempo que tudo cura demora a passar.</p>
<p style="text-align: justify;">É chato o estar triste. E ainda por cima as pessoas olham-nos de través e se tiverem oportunidade, fogem de nós. Para tristeza, basta-lhes a que carregam, não precisam de se aborrecer com a dos outros. Até eu me olho de través, e nessas alturas, se pudesse, ia-me embora de mim, e não voltava.</p>
<p style="text-align: justify;">«Lembro-me que nos meus tempos de miúdo, perto da casa de meu avô, vivia uma senhora que estava sempre triste. Era uma mulher muito rica que vivia sozinha num enorme casarão, sem marido, sem filhos, sem qualquer familiar. Chamavam-lhe dona Ana da casa grande. À sua passagem, falava-se baixinho, comentando o que ninguém sabia. Amores antigos e impossíveis, diziam uns, enquanto outros se inclinavam para as hipóteses de assassinatos múltiplos, <span id="more-1071379"></span>perpetrados pelo senhor da casa grande, pai da dona Ana, sobre um seu irmão que teria seduzido a pequena e sobre a mulher que teria ajudado a que tal se concretizasse, e que, cheio de remorsos, acabaria por se matar com um tiro de caçadeira de canos sobrepostos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por certo tudo invenções da populaça, uma vez que fosse de que maneira fosse, ninguém e muito menos eu, soubemos o que a vida lhe fez. Mas, e isso sabe-se de fonte segura, foi-lhe madrasta pela certa. E toda a gente da vila, de uma forma ou de outra, fugia da sua companhia, olhando-a com um olhar enviesado, comentando, bichanando, sussurrando.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelas ruas da vila, pelas salas e pelos campos e jardins da casa grande, pela farmácia onde ia diariamente aviar algum remédio ou poção, pelo talho onde comprava a sua bolinha de carne picada, pelo correio onde todos os dias perguntava se havia alguma carta para ela mesmo sabendo que nunca havia, ou pela venda onde ia comprar os dois moletes do dia e um ou outro ingrediente para cozinhar, passeava uma tristeza tal que nem criadagem arranjava para lhe cuidar dos afazeres da casa ou jornaleiros para tratar dos campos, que não fossem trabalhar a muito custo e por compaixão.»</p>
<p style="text-align: justify;">Não gosto nada de me ver desta maneira. Não tenho nada que estar assim, triste, acabrunhado. Não mereço estar triste. Estar triste é uma maçada.</p>
<p style="text-align: justify;">E na verdade não gosto desta tristeza, chego até a detestar-me por me ver assim, porque me dói, e eu detesto que seja o que for, me doa. Porque dói a quem gosta de mim, e eu detesto magoar quem me queira bem. Porque me dói ver o olhar de quem sente indiferença pelo meu sofrimento, ou de quem sente compaixão. E ainda porque não quero dar qualquer prazer a quem gosta de ver ou de saber da minha dor.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, apesar desta minha aversão, estou triste, e isso dói.</p>
<p style="text-align: justify;">«E dói-me durante algum tempo, embora pouco, que depois passa. Quanto não terá doído à dona Ana da casa grande, estar assim uma vida inteira.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhando-se para ela, mais parecia que estava constantemente num velório, chorando por dentro.»</p>
<p style="text-align: justify;">E são tantas as dores que doem. De todas, estas são as piores. Agarram-se a nós como lapas. Invadem-nos, comem-nos, torturam e desmoralizam. Queria, como com as outras dores, aprender a viver com elas. Essas, as outras, sempre e só físicas, deixam de nos pertencer após algum tempo. É como se estivessem fora de nós, e passam a custar menos. São dores que pertencem à dor, e aprendemos a dominar a ciência dessa convivência. Estas, as que agora sinto, as dores da tristeza, não deixam que me habitue a elas, não me deixam aprender a dominá-las. Acabarão por ir embora, “a su tiempo”. “Todo a su tiempo”. Mas são peçonhentas, estas dores, e enquanto não me abandonam, custam a aguentar.</p>
<p style="text-align: justify;">«E acabo por me sentir menos mal com o mal dos outros, neste caso com a dores antigas da senhora da casa grande. Que coisa feia de se sentir! Mas é o que sinto e o que penso, e sei que “a su tiempo” estarei bem, e que à dona Ana, nunca chegou a passar-lhe a tristeza, e a dor, e por isso estou sempre melhor do que ela esteve.»</p>
<p style="text-align: justify;">Não consigo dar a volta a este meu estado de alma, por enquanto. Tenho de esperar que o tempo passe. E enquanto não passa, terei de disfarçar, para que não me vejam assim. Entretanto, e porque estou desta forma, e também porque tive de mentir para os outros para que não me vissem assim, o meu corpo ressente-se, o estômago dói, a cabeça lateja e o futuro que vejo é uma miragem.  A angústia toma conta de mim, sinto-me oprimido.</p>
<p style="text-align: justify;">Felizmente, nestes bocados, estou sozinho. Já ninguém me pode ver. Já é noite e agora o meu quarto é o meu mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">A noite é má companhia para estas coisas. Tudo é mais negro. Tudo é ainda mais tenebroso. Não há, nunca há, uma saída airosa seja para o que for. Os meus fantasmas chegam e ficam, assentando arraiais. Mas pelo menos não tenho de mentir. Tudo me é mais verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada me apetece. Não tenho fome. Talvez, pensando bem, tenha um pouco de sede. Sinto um descair quase doentio dos músculos da cara. O sorriso desapareceu e não quer sequer pensar em voltar. A paciência esgotou-se já há algum tempo e tudo me irrita. Logo depois a prostração chegou da mesma forma que chegara entretanto o desalento, de supetão. Só me apetece sumir deste mundo e não voltar.</p>
<p style="text-align: justify;">«Quantas noites não terá tido a senhora da casa grande tão más ou piores que esta minha. Alguma vez lhe terá passado a melancolia?»</p>
<p style="text-align: justify;">As coisas do dia-a-dia foram-se fazendo porque teve de ser, mecanicamente, sem pensar nelas, sem dar por isso. O pensamento, esse, tem estado preso numa roda de onde não consegue sair. As palavras repetem-se incessantemente, sempre as mesmas, incompreensivelmente as mesmas, martelando sem parar as paredes fofas do interior da minha cabeça, mais parecendo que não conheço outras.</p>
<p style="text-align: justify;">O sono aparece logo depois da chegada de uma dor de cabeça monstruosa. Até agora, doía simplesmente. Mas não consigo dormir. Bocejo e mais nada. É um completo suplício. Os olhos ardem e pesam, e só me apetece tê-los fechados, mas estou desperto, totalmente desperto e eles mantêm-se arregalados contra a minha vontade. A cabeça lateja, dói como raramente me dói.</p>
<p style="text-align: justify;">E as palavras repetidas não param. Sempre as mesmas, sempre, sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">E os fantasmas da noite vêm para me fazerem companhia e não querem ir embora. São bons companheiros. Não nos largam nem por nada.</p>
<p style="text-align: justify;">«E a senhora, seriam assim as noites dela? Que fantasmas a acompanhariam?»</p>
<p style="text-align: justify;">Anseio pela chegada de um sono reparador, que não vem, que não quer vir, que demora a chegar, que vem muito devagar, a não ser quando, já exausto, desisto de tudo, até de pensar.</p>
<p style="text-align: justify;">E sonho que tudo não passa de um sonho mau, de um pesadelo, mesmo sabendo que no dia seguinte tudo estará na mesma, ou pior.</p>
<p style="text-align: justify;">E o tempo, que tudo cura, que não passa!</p>
<p style="text-align: justify;">Até que de manhã, acordo com o sol a entrar-me pela janela do quarto e a bater na parede aos pés da cama, e tudo acalma, tudo regressa à normalidade, e a esperança regressa.</p>
<p style="text-align: justify;">A tristeza já lá vai, já nada mais quer comigo, mas sei que para a senhora dona Ana da casa grande, ela (a tristeza) nunca foi uma outra coisa que não fosse uma companhia constante e uma parceira para a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">E isso, dói-me.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A TRISTEZA É UMA COISA QUE A CADA PASSO ME INVADE, COME, TORTURA E DESMORALIZA.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>APRENDER A VIVER COM ELA É UMA CIÊNCIA QUE APESAR DE TUDO O QUE ME FOI ACONTECENDO NA VIDA, AINDA NÃO DOMINO. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #ffffff;"> .</span></p>

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		<title>Temperaturas Altas</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 22:12:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[calor]]></category>
		<category><![CDATA[como se fora um conto]]></category>
		<category><![CDATA[josé magalhães]]></category>
		<category><![CDATA[verão]]></category>

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		<description><![CDATA[. O calor aperta. É já noite cerrada e os termómetros não descem dos trinta graus. Quero dormir. A temperatura não deixa. Já bebi quase dois litros de água. Estou doido de sono e o cansaço que me consome, não se deixa vencer nem convencer. Isto assim não é o costume na minha latitude. Ás [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: justify;"><span style="color: #ffffff;">.</span></div>
<div style="text-align: justify;">O  calor aperta.</div>
<div style="text-align: justify;">É já noite cerrada  e os termómetros não descem dos trinta graus.</div>
<div style="text-align: justify;">Quero dormir. A temperatura não deixa. Já  bebi quase dois litros de água.</div>
<div style="text-align: justify;">Estou  doido de sono e o cansaço que me consome, não se deixa vencer nem  convencer.</div>
<div style="text-align: justify;">Isto assim não é o  costume na minha latitude. Ás vezes acontece, mas não mais que uma vez  no ano e por poucos dias, mas neste, já vamos na terceira vez, e ainda  só estamos em Julho.<span id="more-1070679"></span></div>
<div style="text-align: justify;">Estou farto.  Já tomei dois banhos de água fresca e, nada. Tudo na mesma.</div>
<div style="text-align: justify;">Como é que as pessoas que moram nas zonas  onde é sempre assim, aguentam?</div>
<div style="text-align: justify;">Preciso  de uma banheira de água fria para mergulhar nela.</div>
<div style="text-align: justify;">As janelas estão abertas, as ventoinhas  ligadas, o ar condicionado portátil avariou. atira com ar morno para  cima de mim.</div>
<div style="text-align: justify;">Porra, já chega.  Quero dormir mas a cama está a ferver.</div>
<div style="text-align: justify;">Vim agora de tomar o terceiro banho. Não me seco. Todo  molhadinho coloco-me em frente da ventoinha. Consigo arrefecer um pouco.  Já vou no terceiro litro de água, duas colas e um sumo, gelados.</div>
<div style="text-align: justify;">Sinto-me asfixiar. A respiração pesada  seca-me a garganta. Bebo mais. A bebida já me sabe mal e enjoa-me.</div>
<div style="text-align: justify;">Não me lembro de uma noite assim.</div>
<div style="text-align: justify;">Lá fora, nem os cães e os gatos da  vizinhança se ouvem. Devem estar todos esparramados com o calor. Os  vadios nem devem ter onde beber, coitados.</div>
<div style="text-align: justify;">O Manel, figura típica d&#8217;aqui da rua e que acorda bêbado e  assim se mantêm todo o santo dia, está sentado debaixo da ponte deixando  a água do fontanário jorrar sobre si, parecendo sóbrio.</div>
<div style="text-align: justify;">Passa um carro de quando em vez pela rua  acima. Nu, à janela, consigo ver os condutores com aspecto de muito  cansados. O senhor doutor advogado, meu ilustre vizinho, chega no seu  automóvel. Vidros fechados, ar condicionado ligado, não parece sentir o  calor. Entra na garagem e desaparece. Tal como eu, vai sofrer, quando  sair do carro e encontrar este bafo quente e quase sem vento.</div>
<div style="text-align: justify;">Estou casa vez mais cansado, e o sono que  sinto não vence a caloraça. Olho o relógio, já é tarde. se chegar a  adormecer, pouco tempo terei para dormir. Levanto-me todos os dias antes  das sete da manhã. Olho o termómetro,  marca trinta e dois, e até  parece que está húmido de mais. O calor pega-se-me ao corpo. Estou  pegajoso. Vou-me molhar outra vez.</div>
<div style="text-align: justify;">De novo nu, molhado, em frente à ventoinha. Huuummmm, que  booooom! Arrefeço bastante. Ainda molhado deito-me na cama, ventoinha na  minha direcção.</div>
<div style="text-align: justify;">Talvez que  adormeça.</div>
<div style="text-align: justify;">Sem dar por isso,  acordo ao som do despertador. Sete menos um quarto. Trinta graus e um  céu limpo. Vai começar tudo de novo.</div>
<div style="text-align: justify;">Estou cansado e farto, porra!</div>
<div style="text-align: justify;">Nunca mais é inverno!</div>

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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; As Férias Grandes</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jul 2010 14:00:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[férias]]></category>
		<category><![CDATA[férias grandes]]></category>
		<category><![CDATA[josé magalhães]]></category>
		<category><![CDATA[montanha]]></category>
		<category><![CDATA[praia]]></category>

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		<description><![CDATA[No tempo da minha juventude, já lá vão muitos anos, e da de quase todos os que têm mais de trinta anos (os meus filhos mais velhos já têm), as férias grandes eram mesmo grandes. Tão grandes que, por vezes, nos víamos a pensar que nunca mais chegavam as aulas. Eram três meses inteirinhos, compridos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No tempo da minha juventude, já lá vão muitos anos, e da de quase todos os que têm mais de trinta anos (os meus filhos mais velhos já têm), as férias grandes eram mesmo grandes. Tão grandes que, por vezes, nos víamos a pensar que nunca mais chegavam as aulas. Eram três meses inteirinhos, compridos, muito compridos, feitos de noventa dias a fazer pouco ou nada. Nessa altura, tínhamos, eu e os meus muitos primos e a maior parte dos meus amigos, a praia, desde as nove da manhã até mesmo ao final da tarde, uma estadia de uma ou duas semanas em casa de familiares no campo, e outras tantas em casa de outros familiares, na montanha. Mais tarde, na juventude dos meus filhos, as semanas na montanha tinham já acabado, com o desaparecimento dos familiares que por lá viviam.</p>
<p style="text-align: justify;">Os meus primos, os meus amigos e eu, e mais tarde os meus filhos, pertencíamos a um grupo de privilegiados, uma vez que a maior parte da população das cidades não tinha as nossas possibilidades de escolha, nem muitos familiares predispostos a aturá-los durante parte das férias. Esses, passavam quase todo o tempo na<span id="more-1069900"></span> mesma casa de sempre, na mesma praia de sempre, na mesma rua de sempre, sem mais nada que fazer que fazer nada, pensar, ver as ervas a crescer e as marés a subir e a descer.</p>
<p style="text-align: justify;">Por nosso lado, a par do nada ter para fazer, tínhamos tudo. Para além das praias, das marés, das ervas e da rua de sempre, quando íamos para o campo ou para a montanha, tínhamos os frutos, os animais, a lida da terra, os passeios na velha bicicleta pesada e sem mudanças, os campos e a montanha. Passávamos os dias a brincar com paus, fingindo serem juntas de bois ou espadas ou até mesmo cavalos, contemplando os frutos a amadurecer dia a dia, ou extasiados a olhar os vales e as montanhas.</p>
<p style="text-align: justify;">O ter nada para fazer, fazia-nos bem. A todos, os privilegiados e os que o não eram. Nisso, estávamos todos no mesmo «barco». Aprendíamos a lidar com o aborrecimento, com o lento passar dos minutos que às vezes mais pareciam horas, e a conviver com o tédio, tratando-o por tu. Essa aprendizagem permitia-nos pensar e aprender a fazê-lo, observar tudo à nossa volta e desenvolver capacidades para conseguirmos estar de bem com a vida. Aceitávamos o que tínhamos e não éramos menos felizes por isso. As horas e horas que o dia tinha, que conforme as férias iam passando cada vez mais custavam a passar, desde o alvorecer ao cair da noite, mais não eram que uma fatalidade com que tínhamos que conviver. E com todas essas poucas coisas, esse tempo que nunca mais acabava foi-nos muito útil, e éramos felizes.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, tudo é diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos quase três meses de férias, os nossos jovens têm quase de tudo. Muito poucos terão o campo ou a montanha para passar uns dias rodeados de ar puro. Mas têm a praia nas zonas quentes do planeta (que as da nossa terra são fracas) para onde vão passar oito ou quinze dias no meio de uma multidão de turistas, têm televisão, PsP’s, consolas, bicicletas, clubes de férias, worshops onde podem aprender a andar de skate ou a pintar paredes com grafitis, aulas para aprender a cozinhar, a andar a cavalo ou a cavalgar as ondas, e toda uma quantidade de coisas destinadas a entreter os miúdos e a desviar dos pais a «chatice» de os aturar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não têm sequer tempo para pensar. Não reparam no amadurecimento da fruta ou no crescimento da erva, não olham para o mar extasiados com o bater das ondas sempre diferente, não perdem o olhar nos vales entre montanhas. Não desenvolvem a criatividade nem inventam brincadeiras uma vez que já lhas entregam feitas e empacotadas. Jogam joguinhos de lutas, de corridas, de construções, a sós, parados em frente a um ecrã de computador. Passam o tempo ocupados, de manhã à noite, em actividades compradas, quase sem tempo de desejar que as férias acabem. E mesmo assim, se por qualquer razão estão um quarto de hora sem terem qualquer coisa de diferente para fazer, muitos deles ficam aborrecidos, entediados, sem saberem o que fazer nem como, perdidos num mundo que desconhecem, e demonstram uma infelicidade tremenda.</p>
<p style="text-align: justify;">Sinal dos tempos ou a notória falta de tempo e oportunidade para fazer nada e aprender a pensar na vida?</p>
<p style="text-align: justify;">Será que não se pode mudar isso, para bem deles?</p>

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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; Associação Fotográfica do Porto &#8211; A polémica nasceu</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Jul 2010 13:00:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vá-se lá saber porquê, talvez que movido por interesses próprios fruto de um protagonismo que lhe estará a fugir, ou eventualmente servindo os de alguém que se esconde por trás de um anonimato pardacento, ou por uma qualquer outra razão que me escapa, surgiu, pela voz e acção do coordenador dos «Encontros do Olhar» do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Vá-se lá saber porquê, talvez que movido por interesses próprios fruto de um protagonismo que lhe estará a fugir, ou eventualmente servindo os de alguém que se esconde por trás de um anonimato pardacento, ou por uma qualquer outra razão que me escapa, surgiu, pela voz e acção do coordenador dos «Encontros do Olhar» do IPF (Instituto Português de Fotografia), a notícia, bombástica, da «inqualificável» usurpação do nome intocável da AFP (Associação Fotográfica do Porto), pela actual Associação “Portografia”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o comum dos cidadãos da cidade do Porto, a sigla AFP poderá querer dizer  uma qualquer coisa, desde futebol a farmácias passando casualmente pela fotografia, e terá um interesse relativo, mas para os fotógrafos mais antigos, e se calhar só para esses, faz parte da história da fotografia, da cidade, e do País. Teve, no seu tempo, já lá vão mais de trinta anos, uma importância relevante na formação e criação de fotógrafos no norte do País e em especial na cidade do Porto. A AFP, foi e será sempre parte integrante e importante da vida e da história da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Entendo ser uma pena que os que com ela conviveram, com ela aprenderam e com ela se tornaram em alguns dos melhores fotógrafos Portugueses, nunca tivessem querido preservar o seu nome, constituindo-se em grupo organizado, e, também, nunca tivessem estado dispostos a descer do seu pedestal e criado um espólio com obras, máquinas e toda a espécie de trabalhos dos seus associados. A AFP morreu por culpa de todos eles, esquecida, velha e caduca, não se sabendo muito bem quando nem como. Dessa AFP, restam memórias e alguns encontros em almoços e jantares feitos por alguns saudosistas.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano de 2009 nasceu uma, mais uma, AFP. <span id="more-1069817"></span>Resolveu chamar-se Portografia, tendo como designação social Associação Fotográfica do Porto. Juridicamente tudo legal e sem nada, seja o que for, que se lhe possa apontar de negativo, a não ser o uso do nome, assim entendido por alguns, como complemento ao seu,  anteriormente usado pela velha e antigamente prestigiada Associação.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante um ano, esta nova entidade, viveu calmamente, usando quase exclusivamente o nome por que é conhecida, “Portografia”, sem, que se saiba, alguma vez se ter chamado herdeira, seja em que sentido for, da antiga Associação.</p>
<p style="text-align: justify;">Até ao dia 6 de Julho de 2010.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse dia, no IPF (Instituto Português de Fotografia) e num fim de festa onde não seria previsível o surgimento de tal questão, levantaram-se as vozes, teceram-se críticas, insultaram-se presentes e ausentes, pôs-se em causa a honorabilidade de pessoas, duvidou-se das intenções, criaram-se inimizades e gerou-se o conflito. Uns usaram, outros terão sido usados, uns ofenderam e outros ripostaram. Estragaram a excelência das intervenções anteriores feitas por José Marafona e pelo grupo KameraPhoto. O que deveria ter terminado em festa, acabou em zanga. A quente, disseram-se coisas, escreveram-se outras mais, todos com as suas razões, todos com partes de razão, ninguém isento de culpas ou detentor da verdade absoluta.</p>
<p style="text-align: justify;">Os antigos associados  da primitiva AFP, alguns poucos, entendem ter uma razão moral, e com alguma propriedade não terão gostado de ver o nome da instituição que serviram e da qual se serviram, usado por outros. A Portografia entende ter a razão total, já que usou um nome que juridicamente não pertencia a ninguém, e na altura e durante os muitos e muitos anos anteriores, nunca tinha havido quem tivesse querido reclamar  a respectiva propriedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Até ao dia 6 de Julho de 2010.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo poderia ficar por aqui, numa discussão inócua e sem interesse, e todos iriam viver em paz com eles mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, foi colocada uma nódoa em cima da Portografia, por parte coordenador dos «Encontros do Olhar», motivado pelos seus interesses ou eventualmente daqueles a quem ele terá querido servir. Neste particular, as suas acções e os seus intentos acabaram por surtir algum efeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento, e sobre este assunto, pouco mais haverá a fazer, a não ser o pensar em ter atitudes positivas e inteligentes.</p>
<p style="text-align: justify;">No meu entendimento, torna-se obrigatório preservar a memória da AFP (a original) dada a sua história e valor, e desde que os seus «herdeiros morais» assim o entendam, bem assim como a actual, em conjunto.</p>
<p style="text-align: justify;">E a ser assim, porque não dentro da Portografia – Associação Fotográfica do Porto? Porque não se juntam e conversam, os que se consideram detentores da herança moral da AFP e os actuais donos do nome?</p>
<p style="text-align: justify;">Porque não criar uma secção, com um eventual espólio gerido pelos antigos membros da antiga AFP, eventualmente em conjunto e/ou com o apoio do grupo F4 (efequatro) e do Fénix Fotografia, em instalações partilhadas e a criar para o efeito. Estando um novo projecto na forja, porque não aproveitá-lo?</p>
<p style="text-align: justify;">Podem no entanto, esses senhores herdeiros, entender que não querem sequer conversar com a actual Associação, sendo que o inverso pode também vir a ser verdadeiro. Nesse caso dever-se-ia, digo eu, ignorá-los, a uns ou a outros, de uma vez por todas, passando-se a entender que a questão levantada no fim de festa do IPF mais não foi do que fruto do ego exacerbado de alguns, sem mais importância que essa mesmo, e que terá sido aproveitada para fins eventualmente inconfessáveis de outros.</p>
<p style="text-align: justify;">

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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; O mês de Junho terminou, já acabaram as festas populares &#8211; o S. João -</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Jul 2010 16:00:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[josé magalhães]]></category>
		<category><![CDATA[Noite de S. João]]></category>
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		<description><![CDATA[À minha direita o mar, lá ao longe, à minha frente uma parede de pedra e à minha esquerda as duas senhoras já entradas na idade terceira, que ciciavam. Sentadas uma ao lado da outra, à mesa do café, falavam em surdina dos tempos de antigamente. Em cima da mesa estavam guardanapos, uma torrada de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">À minha direita o mar, lá ao longe, à minha frente uma parede de pedra e à minha esquerda as duas senhoras já entradas na idade terceira, que ciciavam. Sentadas uma ao lado da outra, à mesa do café, falavam em surdina dos tempos de antigamente. Em cima da mesa estavam guardanapos, uma torrada de pão de forma, uma mirita, uma meia de leite e um pingo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://2.bp.blogspot.com/_tq4btRRcr5g/TCcqwKSg_hI/AAAAAAAABZo/oJn7uBPrA10/s1600/s.+jo%C3%A3o.jpg" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/2.bp.blogspot.com/_tq4btRRcr5g/TCcqwKSg_hI/AAAAAAAABZo/oJn7uBPrA10/s1600/s.+jo_C3_A3o.jpg?referer=');"></a>O tema da conversa era a festa do São João, comparando a de agora, com a de outrora.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade pouco se entendia da conversa, apesar dos meus esforços de atenção e do meu esticar de orelhas para aquele lado, já que conseguiam falar bastante baixo.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto lá pude perceber sobre que conversavam e apanhar uma ou outra ideia. Essencialmente, adoravam o Porto e a sua festa da noite de S. João, mas não gostavam de barulho, nem dos martelos, nem da música que dos altifalantes saía e que se ouvia por toda a cidade, nem do ronco das recentes vovuzelas. Também lhes fazia falta o alho e a cidreira, e os bailaricos. Sim, os bailaricos que havia, e que assumo que ainda haja, toda a santa noite, em inúmeros pontos da cidade do Porto.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos poucos fui deixando de as ouvir. Catalisados pela conversa que eu entre-ouvia, os meus pensamentos começaram a tomar conta de mim.</p>
<p style="text-align: justify;">Vi-me na minha meninice e também no fim da minha juventude. A revolução tinha acabado de acontecer e a «liberdade» tinha chegado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na altura a festa do S. João estava <span id="more-1069264"></span>concentrada na baixa. Os pontos principais eram a Avenida dos Aliados, Sá da Bandeira, Santa Catarina, Batalha e acima de tudo, as Fontainhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Era aí, nas Fontainhas, que se ouvia barulho e se via o maior movimento. Mais cedo ou mais tarde da noite, todos por lá passariam. Naquela zona havia em bastante quantidade carrinhos de choque, restaurantes, cadeiras voadoras, aviões, manjericos, farturas, matraquilhos, sardinhas, alhos pôrros, carrosséis, cidreira, febras, e o mais que se possa imaginar, e em cada um dos sítios a sua própria música, tocada bem alto, para abafar a do vizinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Íamos para lá pelo meio da noite, os meus amigos e eu, para jogar matrecos e comer. Só gostávamos dos matrecos do Romualdo, eram os melhores ( às vezes era preciso esperar pela vez de jogar, tal era a quantidade de frequentadores). No jogo, o meu companheiro de equipa, o Zé António, jogava à frente e eu sempre à defesa. Jogávamos ao perde paga e por norma nós os dois ganhávamos. Eu até nem defendia mal, mas o Zé, era perito em fintas que conseguia executar com uma rapidez estonteante. Sabia fazer a «tolinha», o «tic-tac», o «arrasto», a «segunda linha», a «lolita» e muitas outras fintas de que me não lembra o nome. Ele mexia a mão com uma destreza e rapidez enormes e só se ouvia depois o barulho da bola a bater no fundo da baliza. Era quase impossível saber como a finta era feita. Como um certo herói de banda desenhada, era mais rápido que a própria sombra. Nos intervalos dos jogos íamos comer e comíamos o que o parco dinheiro permitia. Umas farturitas, uma ou outra cerveja ou sumo, umas febras no pão… pouco mais. Tinham de dar para a noite toda, os poucos escudos que trazíamos no bolso.</p>
<p style="text-align: justify;">Anos mais tarde, os matraquilhos passaram para a Rotunda da Boavista, juntamente com os comes e bebes, fazendo concorrência às Fontainhas. Foi o começo da descentralização e da disseminação das festas de São João por toda a cidade. Com os matrecos e as farturas, foram para lá, também, os carrinhos de choque e os manjericos.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes da nossa ida para os lados das Fontainhas, já tínhamos corrido em rusgas pela Avenida e por Sá da Bandeira, já tínhamos saltado fogueiras, já tínhamos batido nas cabeças dos carecas com o alho pôrro, a parte da flor claro, ou esfregado, ao de leve, a cidreira nos narizes das mulheres e raparigas bonitas com quem nos cruzávamos. Também já tínhamos ido em direcção à Batalha, a passo de caracol, no meio de uma multidão enorme, compacta, pela rua de Santa Catarina, vindos de Sá da Bandeira e da rua Formosa, já tínhamos lançado alguns piropos e feito «olhinhos» a umas quantas meninas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas mais importante do que isso, já tínhamos ido dançar durante uma hora ou duas (a noite começava com o pôr do sol). Para nós, a dança era um dos momentos altos da noite. Pedia meças ao outro grande momento, o jogo de matrecos. Num ano, ou talvez em dois, o Zé, o Silva (o meia leca do nosso grupo e que era o melhor jogador de ping-pong de entre todos nós) e eu, nem fomos jogar tão «bem» nos correu a festa. Nesses anos os outros nossos amigos não gostaram nada dessa brincadeira, já que ficaram sem alguns dos parceiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia um bailarico quase em cada bairro da cidade, quase em cada esquina da cidade. No meio da rua, num recanto entre prédios sociais, ou noutro sítio qualquer, havia música e baile, noite dentro. Apesar dos olhares atentos dos pais, namorados e maridos das moçoilas, momentos havia em que conseguíamos dançar como só no S. João se dança, com muita garra e muito desejo e sem que ninguémguém nos tenha tentado amassar os colarinhos ou termos tido a necessidade de dar corda aos sapatos para nos pirarmos dali para fora.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu local preferido para bailar, ficava entre prédios de um bairro junto ao Prado do Repouso. O largo formado pelos prédios, dispostos em u, com uma só entrada para a rua, era recatado e perfeito. Sempre nos correu «bem» a ida a esse baile. As pessoas eram simpáticas e dadas. Durante anos foi o nosso poiso até às badalados da meia-noite, e muitas vezes até muito mais tarde. A dada altura, já tínhamos amigas por lá. Amizades que saltavam de um ano para o seguinte, e duravam uma noite, raramente mais que isso.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim da noite, quase com o sol a raiar, era ver-nos em debandada do centro da cidade, com as ruas quase desertas e com as bancas dos manjericos já vazias, em direcção às praias da Foz. Sempre a pé, fazíamos muitos quilómetros nessa noite.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se vislumbravam transportes públicos, só um eléctrico ou outro, e o dinheiro já se tinha gasto todo. A praia do Homem do Leme era o meu destino favorito, em detrimento da minha praia de sempre, a de Gondarém, pequena de mais e com o mar mesmo em cima de nós. Anos houve em que as barracas da praia ficaram montadas com os panos durante a noite e assim pudemos ficar recolhidos e ao abrigo do relento da noite. Lá acabávamos a folia, a dormitar na areia fria, à espera do calor do sol, sem bebedeiras, com muito gozo e com nenhuma droga.</p>
<p style="text-align: justify;">A noite do S. João do Porto sempre teve repercussões a nível social. O Santo tem milhares de filhos na cidade, tentando assim suster a diminuição de habitantes. O mês de Março será talvez o mês do ano com mais nascimentos na zona do Porto, a par com o fim de Setembro e o começo de Outubro. Até eu, imagine-se, tenho um filho nascido em Março, por certo também ele filho do S. João, mesmo nove meses certinhos após a véspera do dia da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Adoro o S. João, ou melhor, adorei o S. João quando ele se passava no centro da cidade, Aquele S. João que não tinha martelos mas tinha alho pôrro, que não tinha roulottes espalhadas por todas as zonas mas tinha cidreira e matraquilhos (os do Romualdo eram os melhores, já disse), que não estava espalhado por tudo quanto é cidade mas que tinha nas Fontaínhas o seu ponto principal, a par da Avenida dos Aliados, de Santa Catarina e da Batalha. Aquele S. João que tinha dezenas de fogueiras e centenas de balões a esvoaçar no céu (ó patego, olha o balão, gritava-se), e não tinha vovuzelas como este ano. Aquele S. João que tinha o seu fogo preso e de artifício «deitado» no dia de S. Pedro, na Afurada.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos, bastantes já, tenho-me ficado por casa, ouvindo um pouco ao longe o barulho dos martelos misturado com os sons dos altifalantes. Este ano ouvindo também o horroroso som das vovuzelas.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez seja da idade, esta minha vontade de não comparecer à melhor noite da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Adorava o S. João (a véspera de S. João tem um significado muito especial para mim) e se hoje ainda fosse dia 23 e a noite ainda estivesse para vir, bem que iria dar um salto à baixa, tentar reviver esses tempos (está a dar-me uma espécie de nostalgia, embora, infelizmente, com alguns dias de atraso).</p>
<p style="text-align: justify;">Há imensas razões para se adorar esta cidade. A um bom amigo meu, FMSá, que sobre isso escreveu no <a href="http://albergueespanhol.blogs.sapo.pt/409100.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/albergueespanhol.blogs.sapo.pt/409100.html?referer=');">blogue Albergue Espanhol</a> e também aqui no <a href="http://www.aventar.eu/2010/06/27/bem-me-parecia/">Aventar</a>, bem que lhe parecia que alguma coisa justificava tanto amor a esta terra e a esta gente, como por exemplo o haver tantos filhos do S.João. Essa é só mais uma de entre milhentas. E tinha razão. Seja o que for, por pequeno pormenor que seja, justifica essa paixão por esta cidade maravilhosa.</p>
<p style="text-align: justify;">As senhoras já tinham acabado o lanche havia muito tempo. Nem tinha dado fé disso, perdido nos meus pensamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Levantei-me e vim escrevinhar este texto.</p>

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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; O Opel Corsa, o Rúben e a Torrada de Pão de Regueifa</title>
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		<comments>http://www.aventar.eu/2010/06/11/como-se-fora-um-conto-o-opel-corsa-o-ruben-e-a-torrada-de-pao-de-regueifa/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 11 Jun 2010 15:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Era ainda de manhã, cedinho, de uma sexta-feira feita para engenheiros de pontes. Ontem, muitos, demasiados, festejaram o dia do meu País como se tudo estivesse bem.  À mesa do café onde muitas vezes desjejuo, leio distraído o jornal do dia. A revista que o acompanha também está por ali, com a sua capa colorida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Era ainda de manhã, cedinho, de uma sexta-feira feita para engenheiros de pontes. Ontem, muitos, demasiados, festejaram o dia do meu País como se tudo estivesse bem.  À mesa do café onde muitas vezes desjejuo, leio distraído o jornal do dia. A revista que o acompanha também está por ali, com a sua capa colorida a tentar chamar-me a atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre uma leitura de títulos da primeira página do jornal e da revista, e uma espreitadela às fotografias que os acompanham, fico sabedor do que mais importante se passou no dia de ontem, ou nos que o antecederam.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos poucos vou tomando consciência do que é interessante para os Portugueses.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, pedindo desculpas pelo tratamento muito informal que vou dar às pessoas, fiquei a saber que a Sofia e o Nuno, <span id="more-1067400"></span>que não conheço mas que leio serem actores, já não namoram um com o outro, e que cada um deles tem já consolo garantido noutras paragens. Que a Isabel, coitada, já nem consegue viver sem o Pedro, personagens que igualmente não conheço mas que aprendi que trabalham como manequins, e que o Tony, este conheço por ser um cançonetista de Carreira, este ano não tem férias. Que o Ronaldo, foi visitar o senhor Mandela e que o senhor Silva quer sacrifícios, desde que explicados e repartidos. Que a festa do futebol começa hoje e que as polémicas do País terminam porque o Vítor, este até eu sei que foi o melhor guarda-redes Português de sempre, acha que o campeonato do mundo de futebol passou a ser o tema central da vida Portuguesa. E ainda, que o nosso Primeiro José contesta as críticas que lhe são feitas e fala dos tempos que correm como sendo de dificuldade generalizada, que um homem foi morto à facada e outro que toda a gente pensava que era mulher foi parar ao hospital por motivos passionais, que milhares de crianças foram passear até Fátima apesar da chuva, que o Vice Constâncio quer sacrifícios no BCE, e que as promoções na vendas de artigos de vestuário começaram já, provocadas pelas quebras na facturação dos comerciantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Já nem seria preciso ler mais fosse o que fosse. Com as primeiras páginas do jornal e da revista, já me poderia sentir esclarecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não me senti saciado, e resolvi abrir o diário e continuar a ler.</p>
<p style="text-align: justify;">A par das comemorações do dia de Portugal, das condecorações com que umas quantas sensibilizadas comovidas e agradecidas personalidades foram agraciadas, e dos apupos com que o nosso Primeiro foi brindado, fiquei também a saber que a austeridade chegou à DGS, onde o consumo do papel higiénico, da água e do sabonete tem de ser reduzido, e que a Senhora da Hora, cidade desde há um ano, ainda não sentiu os <a href="http://atributos-1.blogspot.com/2009/06/e-um-fartote.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/atributos-1.blogspot.com/2009/06/e-um-fartote.html?referer=');">benefícios</a> dessa elevação. Li sobre os acidentes de viação, que não acabam, seja por culpa dos automobilistas, seja por culpa do estado das estradas (muito embora se saiba que quando as estradas estão más, se deve andar mais devagar). Aprendi que o sapato mais velho do mundo tem cinco mil e quinhentos anos, e que as nossas águas balneares estão muito melhores, e li que o destino é uma bola.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora por causa desse destino, resolvi ler as páginas que o diário destinava a esse fenómeno. Nada menos que dez. Na segunda página deparei-me com uma crónica e decidi-me a lê-la até ao fim. Versava sobre o profissional da bola que foi a correr para a África do Sul, substituir um outro profissional do mesmo ofício que se tinha magoado. Apesar do meu actual interesse pelo assunto, e até por causa disso (normalmente o interesse é quase nulo), percebo muito pouco da profissão do jogo da bola, em especial desta, jogada com os pés e também com a cabeça (literalmente).</p>
<p style="text-align: justify;">O entendido nestas coisas do jogo jogado, escritor cronista, Neto de seu nome, não gosta mesmo nada do substituto. Percebe-se facilmente pelo teor dos escritos. A dada altura, escreve <em>«Olha-se para ele em campo e rapidamente se percebe: ele podia estar em qualquer sítio, que o resultado era o mesmo. Põem-no a médio interior: não compromete. Põem-no a trinco: joga benzinho. Põem-no a lateral-direito: ninguém dá por ele…/. E, no entanto, também nunca se espera o que quer que seja dele. … não falha um passe porque raramente arrisca um passe difícil. Não erra um corte porque normalmente controla o lance à distância. /… &#8211; e, se saísse por uns minutos para ir urinar, tenho a certeza que ninguém sentia a sua falta. / … Trocar Nani por Rúben … é o mesmo que trocar uma sequóia por uma acácia, um Maserati por um Opel Corsa…»</em></p>
<p style="text-align: justify;">Abstraindo-nos dos termos técnicos, como sejam «médio», «trinco», «lateral», «passe», «corte» e «lance», que, acredito, dizem respeito a este tipo de jogo, esta descrição do jogador, caberia direitinha a muitos dos nossos profissionais da política, como por exemplo a maioria dos deputados da Nação. São sempre os mesmos (poucos) a intervir, a trabalhar, a mostrar serviço feito, enquanto todos os outros só servem mesmo para fazer número, e para, durante quatro anos, aumentarem as despesas da Assembleia e encherem os respectivos bolsos de euros que tanta falta nos fazem.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mesma descrição serviria também, como uma luva, para descrever muitos dos trabalhadores das nossas empresas públicas, bem assim como de muitas privadas, que, quase nada trabalhando, não erram, e não errando, são considerados bons funcionários pelos seus chefes, e por isso são promovidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao pensar nisto, a vontade de continuar a ler as notícias, sempre iguais, que todos os dias aparecem, desapareceu, e entretive-me a degustar a minha torrada de pão de regueifa, e o meu sumo de laranja acabado de espremer.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre valeu mais a pena.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">

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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; O Descalabro do J</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jun 2010 22:55:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[josé magalhães]]></category>
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		<description><![CDATA[O Descalabro do J O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias. As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="text-decoration: underline;"> </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Descalabro do J</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.</p>
<p style="text-align: justify;">As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.</p>
<p style="text-align: justify;">No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.</p>
<p style="text-align: justify;">J é a imagem personificada do desânimo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas.<span id="more-1066893"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A solidão que o assalta é avassaladora. Esse isolamento, nos momentos em que mais necessidade se tem de companhia e compreensão, sempre se impõe a tudo e a todos, mesmo quando, ou até apesar de, gritarmos o nosso pesar aos quatro ventos.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida perde a razão de ser perante o descalabro eminente. A vontade de acabar com tudo, cresce a cada minuto que passa. J, está perdido.</p>
<p style="text-align: justify;">J, de Jaime, de Joaquim, de José … Podia ser eu, este J …. Podia ser eu! Chato, desconfiado, ora trabalhador, ora desleixado, quezilento, ausente, com filhos espalhados pelo mundo, e amores em cada esquina. Podia ser eu, este J.</p>
<p style="text-align: justify;">Como isso me aflige. Uma vida de trabalho a governar e um final desgovernado. Sem ninguém, sem proventos, sem futuro. Uma vida negra, de um negrume intenso, fatal.</p>
<p style="text-align: justify;">Soube do J há dias. Cinco filhos e outras tantas mulheres. Perdeu o emprego de chefia que tinha, e adoeceu, não sei se por essa ordem. Recentemente o governo cortou-lhe o subsídio de doença. Foi considerado apto para um trabalho que não tem nem tem possibilidade de voltar a ter. Como foi gerente da firma que detinha, também não tem direito ao outro subsídio, o de desemprego. A sete anos de distância de uma reforma de miséria, as perspectivas não são brilhantes. Abandonaram-no, os que viveram dos seus impostos, os que viveram dos seus pagamentos de juros e os que dele sempre tinham dependido, a uma sorte que não procurou, a ele, que toda a vida tinha sido mimado por uns e outros. Essa mesma vida durante a qual tinha mimado os outros com a sua capacidade humana e económica. Filhos, mulheres, amigos de todo o género e espécie, todos, um a um, desapareceram da sua companhia como se ele transportasse peste. Dizem-me que pouco lhe falta para desistir, de tudo, de vez.</p>
<p style="text-align: justify;">Podia ser eu, pensei de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhei à minha volta. Livros, computadores, secretárias, cadeiras, fotografias. Estava lá tudo o que é costume estar no meu cantinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos livros já li quase todos, e a alguns até reli uma e outra vez. A outros, poucos, falta ler. Não tive pachorra na altura em que me chegaram às mãos e depois, nunca mais me lembrei deles. A não ser nestas alturas em que intimamente prometo fazê-lo logo que tenha um pouco de vagar. Tenho alguns desses há mais de um lustre, alguns mesmo há muito mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Os computadores, são dois. Um pequeno, portátil, que transporto comigo para todo o lado. É nele que escrevo o que me vem à cabeça. É nele que desabafo as alegrias e as mágoas. É nele que leio as palavras amigas que me mandam pelo novo correio, o electrónico. No outro, o grande, trabalho nas minhas fotografias, descubro os erros que têm e retoco-os, preparo as minhas exposições de imagens, escolhendo as que merecem ser vistas e escondendo as menos boas.</p>
<p style="text-align: justify;">As secretárias e as cadeiras, também duas de cada, onde me sento para escrever em papel. À mão. Adoro escrever com caneta e ás vezes com lápis. Tenho uma letra miúda que por vezes nem eu entendo, mas gosto de escrever, de exercitar a mão, de deixar um testemunho físico da minha passagem por este mundo. Quando posso e o tempo dos dias de hoje me permitem, escrevo cartas, em vez de telefonar, de mandar mensagem via telemóvel ou de enviar escritos por correio electrónico. Sinto-me bem quando recebo uma carta escrita por alguém que me seja próximo, mas cada vez somos menos os que se dedicam a isso.</p>
<p style="text-align: justify;">E as fotografias que me transportam para o passado, sempre presente. Fotografias dos filhos e dos pais e avós e tios e por aí fora. Alguns dos representados nas molduras, mal os conheci, mas lembro-me deles e faço por não deixar de o fazer.  &#8211; Deve ser triste ficar eternamente esquecido numa moldura à espera do fundo de uma gaveta ou de um caixote cujo destino será, um dia, o lixo. &#8211; A outros que por ali estão, não conheci de todo, mas conheço-lhes as histórias e sei dos exemplos que deram e que insisto em tentar seguir.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto olho à minha volta vou pensando de novo que o J bem que poderia ser eu. Que raio&#8230; mas é que podia mesmo… podia sim!</p>
<p style="text-align: justify;">Lembranças, certezas, dúvidas, tudo me assalta. E o J! Soube dele há poucos dias.</p>
<p style="text-align: justify;">Como estará? Qual o valor da vida que ainda transporta, que esquinas dobrará ainda?</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">

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		<title>Nunca Paguei, Bruna!</title>
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		<pubDate>Tue, 25 May 2010 15:00:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
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		<category><![CDATA[bruna]]></category>
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		<category><![CDATA[fotografias]]></category>
		<category><![CDATA[Mirandela]]></category>
		<category><![CDATA[Nunca Paguei]]></category>
		<category><![CDATA[Play Boy]]></category>
		<category><![CDATA[Professora Bruna]]></category>
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		<description><![CDATA[Como Se Fora Um Conto Devo pertencer a um grupo minoritário, creio, que nunca pagou para ver/ter uma revista com fotografias de mulheres nuas, que nunca pagou para ver/ter um filme cuja classificação dada fosse «para adultos», que nunca pagou… Há dias, estava eu a passar um fim de semana maravilhoso no planalto mirandês, quando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong> Como Se Fora Um Conto</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Devo pertencer a um grupo minoritário, creio, que nunca pagou para ver/ter uma revista com fotografias de mulheres nuas, que nunca pagou para ver/ter um filme cuja classificação dada fosse «para adultos», que nunca pagou…</p>
<p style="text-align: justify;">Há dias, estava eu a passar um fim de semana maravilhoso no planalto mirandês, quando uma notícia percorreu o País.</p>
<p style="text-align: justify;">Na zona onde me encontrava, Mogadouro, não se falava em outra coisa. Ali perto, numa cidade vizinha, quase toda a população correu aos quiosques a comprar uma revista, esgotando os espécimens disponíveis.<span id="more-1065960"></span> Dentro, em oito páginas coloridas, uma transmontana aparecia despida de roupas e preconceitos. Os ávidos compradores fizeram circular por tudo quanto era gente as páginas imorais. Miúdos e graúdos, homens, mulheres e crianças, viram e reviram, por todos os ângulos imagináveis, os lugares mais recônditos da pequena. Os mandantes da terra e superiores hierárquicos da moçoila, que era professora de música de meninos da terra, decidiram despedi-la.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi a notícia mais badalada dos últimos tempos. Nem as notícias da crise, nem dos roubos a que todos os dias estamos sujeitos por quem nos deveria governar, nem da fome ou das cinzas do vulcão, tiveram, juntos, tantos leitores como este despedimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Que a notícia não foi, de modo algum, a não ser nas terras transmontanas, a nudez da sirigaita. A notícia foi o despedimento das funções de docente da senhora professora.</p>
<p style="text-align: justify;">E, coitada, até nem foi muito bem paga pelo serviço prestado. Setecentos euros por uma duzia de fotos em poses sensuais. Coisa pouca e barata.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer forma, o que a menina queria, o propósito que a moveu a tirar as fotos, não foi o dinheiro, foi o ser conhecida por toda a gente. E esse, foi conseguido.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo o País passou a falar da professora Bruna, da coelhinha lá do Norte. Mas depressa ela se fartou de tanta publicidade sem nada em troca. Agora, quem quiser falar com ela, quem a quiser entrevistar, paga. E atendendo ao que recebeu pelo trabalho anteriormente feito, até se faz pagar bem. Afinal, agora, é uma pequena conhecida. Por isso, só aceita falar a troca de uma <a href="http://www.ionline.pt/conteudo/61489-coelhinha-mirandela-cobra-pelo-menos-2-mil-euros-entrevista" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.ionline.pt/conteudo/61489-coelhinha-mirandela-cobra-pelo-menos-2-mil-euros-entrevista?referer=');">nota </a>de dois mil euros. E isto sem direito a qualquer fotografia.</p>
<p style="text-align: justify;">Se lhe quiserem tirar o retrato, têm de abrir os cordões à bolsa. E, convenhamos, a moça tem muitos e bons ângulos para serem fotografados.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pensarmos bem, a senhora professora terá razão. Já agora, feito o que feito foi, já nada custa, para a frente é que é o caminho, e no aproveitar é que está o ganho. A fama já a ganhou, o proveito deseja a raparigota que venha depressa, por um atalho.</p>
<p style="text-align: justify;">

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		<title>Como Se Fora Um Conto &#8211; O Meu Tio R</title>
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		<pubDate>Sun, 16 May 2010 23:01:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Magalhães</dc:creator>
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		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[como se fora um conto]]></category>
		<category><![CDATA[Renato]]></category>
		<category><![CDATA[Tio]]></category>
		<category><![CDATA[Tio R]]></category>

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		<description><![CDATA[De uma forma ou de outra todos nós temos ou tivemos um tio. Eu ainda tenho. Às vezes, quase todas as vezes, os tios que temos não nos dizem nada de especial, outras vezes, pelo contrário, são como este que eu tenho. Este tio que eu tenho é o «meu tio». Não tenho outro, nem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">De uma forma ou de outra todos nós temos ou tivemos um tio. Eu ainda tenho. Às vezes, quase todas as vezes, os tios que temos não nos dizem nada de especial, outras vezes, pelo contrário, são como este que eu tenho.</p>
<p style="text-align: justify;">Este tio que eu tenho é o «meu tio». Não tenho outro, nem nunca tive. Bem, isso não é propriamente verdade. Tive e tenho ainda outros tios, mas são-no por afinidade, casaram com as minhas tias. Assim, este é o meu verdadeiro Tio.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora bem, o meu tio, <span id="more-1064299"></span>pois que é deste tio que eu tenho que se trata, foi sempre o meu tio preferido. A seu lado, sentia-me bem, querido, compreendido. Em nenhum outro lado me sentia assim. A sua rebeldia, a sua forma solta de viver, a utilização exacerbada de palavras em calão, os seus amuos iguais aos meus, o seu companheirismo, a sua susceptibilidade e o ser em quase todos os aspectos a antítese do que era o meu pai, faziam-me vibrar. Para além de tudo o resto, a descontracção e a aparente despreocupação do meu tio, aliadas à demonstração de uma enorme alegria de viver, contrastavam enormemente com a sisudez de meu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando tive idade para «fugir» de debaixo das saias de minha mãe, comecei a «fugir» para casa dele, para a praia dele, para o café dele, para qualquer lado onde a sua presença se manifestasse. Com o meu tio R, aprendi muitas coisas. Sempre me pareceu que sabia de tudo um pouco, e eu bebia as suas palavras com alguma sofreguidão. Fosse do que fosse que se falasse, ele sempre tinha uma opinião, um comentário ou uma palavra adequada ao assunto. Os filhos do meu tio, eram os meus irmãos mais novos, mas a vida, madrasta, foi-se encarregando de nos afastar um pouco e aos poucos, muito embora ainda hoje eu os veja da mesma forma, e a saudade dos tempos antigos seja muito grande.</p>
<p style="text-align: justify;">O outro lado da família, o lado paterno, que sempre tinha sido o meu poiso obrigatório até essa altura, começou a perder a cor e a igualar-se a este, nas minhas preferências. Perdia até, muitas vezes, quando eu tinha de optar por um lado ou outro. Inevitavelmente, ao fim de pouco tempo, acabou por perder totalmente em favor deste.</p>
<p style="text-align: justify;">Se fosse possível dizê-lo desta forma, gostava tanto do meu tio como gostava de meu pai. De modo diferente, mas com a mesma paixão.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje não é diferente. Continuo a vê-lo como um segundo pai. Não sei se ele me vê como mais um filho, mas de certeza que me vê como um, razoavelmente bom, sobrinho.</p>
<p style="text-align: justify;">A cada passo, com uma assiduidade menor que a desejável, vou procurá-lo. Sei qual o café onde pára e por lá fico meia dúzia de minutos, à conversa, sobre tudo ou sobre nada, a saber novidades ou a fazê-las saber. Muitas vezes, só pelo prazer de ali estar, de olhar para ele, de o ouvir falar.</p>
<p style="text-align: justify;">A minha paixão por este homem foi sempre tão grande e de tal maneira visível que, quando alguém (sempre os mesmos) me queria aborrecer, ou castigar por alguma coisa que eu tivesse dito ou feito, atirava-me à cara, dando um cariz negativo à maneira de ser do meu tio, que eu era igualzinho ao que ele era. E eu, lá no fundo, sentia um bocadinho, por vezes não tão &#8216;inho&#8217; quanto isso, de orgulho, e sorria intimamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Portista indefectível, chegou a trabalhar graciosamente para o clube. Um dia, num domingo,  foi só um mas ficou-me gravado para toda a vida, levou-me com ele e com a minha prima mais velha ao futebol, às Antas. Fomos para os lugares cativos que eles possuíam, na bancada. Tinham cadeiras só deles, no estádio, para onde iam todos os dias, naquele tempo era quase sempre ao domingo, em que o Porto jogasse lá. Não me lembro já de qual o jogo que se estava a realizar, mas a situação, o prazer, o sonho de lá estar, fez-me sentir excepcionalmente bem, como durante anos mais nada o conseguiu. Nunca tive um lugar cativo nas Antas ou em lugar algum, mas sempre que pensava no que o meu tio e minha prima tinham, sentia invariavelmente uma pontinha de inveja. Quem me dera&#8230; !</p>
<p style="text-align: justify;">Acompanhei-o e à minha tia e aos meus primos, inúmeras vezes, a Freamunde e a Lousada, para patuscadas, brincadeiras, vivências em  família. Foram momentos únicos que nunca esquecerei, e que me trazem imensas saudades.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante alguns anos, infelizmente muito poucos, fizemos a ceia de Natal todos juntos, em casa de meus pais. Se exceptuar os da minha meninice e juventude dadas as suas características, foram dos Natais que mais lembranças e saudades me deixaram, pela diferença, pelo amor e pela alegria que os meus tios e primos nos trouxeram. Foram talvez, dos poucos, senão únicos, Natais, em que eu vi o meu Pai sorrir muito e até chegar a rir de felicidade. Essa alegria foi e é, a imagem de marca de todos eles.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu tio é irmão de minha mãe. Mais novo quatro anos em idade, mas muitos mais em maneira de ser. A sua enorme teimosia faz parte do seu encanto.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu «tio pobre», como ele gostava de se chamar, era e ainda o é hoje em dia, o meu ídolo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos dias que agora passam, desejo-lhe toda a saúde do mundo, toda a felicidade do mundo, tudo o que o mundo lhe possa trazer de bom.</p>
<p style="text-align: justify;">Faz hoje anos o meu Tio. Já em número digno de ser registado. Muitos parabéns. Desejo continuar a contá-los por muitos e muitos anos.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">

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