A luz era azul
A luz do sol era azul…
lembro-me como se fosse hoje!
A luz azul azulava os claustros
as caras e o sentir.
Imaterial
pálida e fria.
As grandes janelas filtravam
a luz azul que entrava dentro de nós
como chuva miudinha.
Pela vida fora senti sempre um arrepio
ao recordar essa luz azul e fria.
As batinas negras dos jesuítas eram azuis e frias
frias e azuis como os olhos
a alma e a sombra.
A alma não era
nessa altura
apenas designação académica.
Por isso ela punha os braços de fora
e estrangulava a minha frágil personalidade
de adolescente
sem sexo nem liberdade.
Se Deus existisse e fosse justo
teria poupado Ignacio de Loyola
à mística Cristocêntrica
e ter-lhe-ia dado Catarina
Germana ou Leonor.
Se Deus existisse e fosse humano
teria posto A Freira no Subterrâneo
dentro da pureza dos meus lençóis
aquecidos de saudade
e vazio azul e frio.
A saudade excitava-me
vivia-me de dia e adormecia-me de noite.
Saudade do Caminho Novo
da minha fogueira quente e vermelha
do meu sol vermelho e quente
do meu campo
do meu rio
da minha noite de estrelas e luar.
A luz azul e fria
reacendeu-se ao fim de quarenta anos
e eu tive medo.
A imposição do azul
desfaz as formas e os sons
e remete para a cidade da morte.
Discordo de Kandinsky
no movimento do azul para o infinito
solene e metafísico
a caminho da eternidade tranquila.
A culpa foi daquela luz azul e fria!
O medo do azul abre as portas do inferno
e mostra lá dentro a coragem a arder.
Sem coragem não há saudade
último reduto da liberdade.
Coragem
liberdade
saudade
inverteram as horas e perderam o tempo.
Correm agora fora das veias
à velocidade de uma luz fria e azul
azul e fria.






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