“A noite lavava as sombras
Das suas pálpebras com a aurora.
Ligeira corria a brisa.
E bebemos! Um vinho velho cor de rubi,
Denso de aroma e de corpo suave”
Poema escrito por Al-Mu’tamid
No ano de 1031 cai o Califado de Córdoba e o Al-Andalus divide-se em reinos independentes, que ficaram conhecidos pelo nome de Reinos de Taifas (do Árabe Muluk At-Tawaif ou reinos fraccionados).
O poder centralizado do Califado Omíada, cada vez mais dependente de uma máquina administrativa pesada e geradora de pesados impostos, aliado aos desejos de autonomia das inúmeras etnias que povoavam o Andalus, estão na origem deste fraccionamento do poder político.
No Sul do território hoje ocupado por Portugal, o Gharb Al-Andalus, constituem-se 4 reinos de taifas _ um grande reino na zona mais a Norte com capital em Batalyaws (Badajoz), um reino correspondendo à região do Baixo Alentejo com capital em Mârtula(Mértola) e dois reinos no actual Algarve, concretamente os reinos de Xilb (Silves) e Xanta Marya Ibn Harun (Faro).
É neste período que floresce uma cultura Hispano-Arabe, sobretudo ao nível da poesia, resultado de uma identidade local criada pela fusão de elementos étnicos árabes, berberes, judeus, hispano-romanos e hispano-godos.
No caso específico do Sul de Portugal essa poesia é hoje referida como Poesia Luso-Árabe e são inúmeros os autores que deixaram obra escrita.
Não pretendendo ser exaustivo sobre este tema, concentrarei este resumido escrito em dois autores, aqueles que ficariam conhecidos como os mais representativos desta cultura _ Al-Mu’tamid e Ibn ‘Amar.
“Minh’alma quer-te com paixão
Ainda que haja nisso uma tortura
E alegre vai na ânsia da procura.
Que estranho ser difícil nossa ligação
Se os desejos d’ambos concordaram!
Que quereria mais meu coração,
Ao desejoso te buscar em vão,
Se meus olhos te viram e amaram?
Allah bem sabe que não há razão
De vir aqui senão para te ver.
Que o vigia não nos possa achar
Se o nosso reencontro acontecer
P’ra os teus lábios doces eu provar.
Folgarei no jardim da tua face,
Beberei desses olhos o langor,
E mesmo que um terno ramo imitasse
O teu talhe grácil, sedutor,
Valerias mais que o imitador.
Não te ocultes, oh jardim secreto:
Quero colher meu fruto predilecto!”
Poema escrito por Ibn ‘Amar
O período em que viveram, apesar de constituir a época mais fecunda da produção artística do Al-Gharb, sobretudo da poesia, correspondeu ao início da decomposição política do Andalus, da dissolução do Estado e transgrediu os próprios valores do Islão, como a lassidão dos costumes, o abuso do vinho, a imoderação sexual, e os impostos ilícitos que sobrecarregavam os mais humildes, o que contribuiu grandemente para a desunião do poder muçulmano e abriu inevitavelmente caminho à vitória cristã.
“Ao passar junto da vide
Ela arrebatou-me o manto,
E logo lhe perguntei:
Porque me detestas tanto?
Ao que ela me respondeu:
Porque é que passas, ó rei,
Sem me dares a saudação?
Não basta beberes-me o sangue
Que te aquece o coração?”
Poema escrito por Al-Mu’tamid
Al-Mu’tamid Ibn ‘Abbad, que ficou conhecido como o rei-poeta, nasceu no ano de 1040 em Beja onde passou a sua infância. Era filho de ‘Abbad Al-Mu’tadid, rei da taifa de Sevilha e homem extremamente autoritário e ambicioso que, conquistando os vários reinos seus vizinhos acaba por criar o mais poderoso reino de taifa do Al-Andalus, o chamado Reino Abádida, que se estendia desde o Sul de Portugal até ao estreito de Gibraltar.
A conquista de Silves é aquela que maiores dificuldades lhe irá trazer, já que só é conquistada após mais de 10 anos de guerra.
Al-Mu’tamid participa com o pai nas várias campanhas contra Silves, ficando no seu governo a partir do ano de 1063.
A vida de Al-Mu’tamid ficará ligada à do seu grande amigo e poeta Abu Bakr Ibn ‘Amar “Al-Andalusi”, natural de Estômbar, com quem mantém uma relação apaixonada e possessiva, num ambiente de corte marcado pela luxúria e prazer, e por escândalos que acabam por fazer com que Al-Mu’tamid seja chamado pelo seu pai a Sevilha e Ibn ‘Amar desterrado para Saragoça.
“Que Alá mantenha a minha turbação
Pois trouxe à minha alcova aquela formosura.
Se de mim a aproximou uma aflição
Quero esta enfermidade com ternura.
Eu sofria, ela veio: são minhas dores contentamento.
Fica ó doença! Já que és bênção.
Alá eu te suplico: mantém meu sofrimento!”
Poema escrito por Al-Mu’tamid
Apesar de manterem essa ligação tão forte, os dois amigos pouco têm em comum, a não ser o génio poético _ Al-Mu’tamid com a sua origem nobre mais se preocupava com o prazer e a poesia, Ibn ‘Amar de origem humilde era extremamente ambicioso e calculista _ o que mais tarde seria determinante para o trágico desfecho da sua relação.
Após a morte de ‘Abbad, Al-Mu’tamid torna-se rei de Sevilha e chama de volta Ibn ‘Amar para ser seu primeiro-ministro.
“O teu aroma tomou-me conta do olfacto
E o teu rosto lindo preencheu meus olhos:
És minha mesmo depois de me deixares
E só por isso me chamam poderoso.”
Poema escrito por Al-Mu’tamid
Vive-se então um período de fragilidade do poder dos reinos de taifas perante o crescente poder dos cristãos, taifas que sobrevivem em grande parte através da diplomacia e do pagamento de tributos.
Conta-se inclusivamente que, quando Afonso VI de Leão ameaça as fronteiras do Reino Abádida, Ibn ‘Amar joga com ele uma partida de xadrez para resolver a contenda sem recurso ás armas. Ibn ‘Amar ganhar e Afonso VI retira para Norte.
O relacionamento entre Al-Mu’tamid e Ibn ‘Amar torna-se cada vez mais difícil, possessivo e inclusivamente ofensivo, chegando ao ponto de Ibn ‘Amar compor poemas em que ridicularizava ‘Itimad, a bela mulher do rei-poeta, conhecida na corte de Sevilha como Saídat-al-Kubra (a grande senhora), odiada por muitos dos seus juristas e religiosos, prontos a traírem e difamarem seu nome e o do seu soberano.
“Invisível a meus olhos,
Trago-te sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
E lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me
E eu, o indomável, que submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre
Oxalá se realize tal desejo!
Assegura-me que o juramento que nos une
Nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
E aqui fica escrito no poema: Itimad.”
Poema escrito por Al-Mu’tamid
Ibn ‘Amar trai por várias vezes Al-Mu’tamid que em nome do passado sempre lhe perdoa, mas no final acaba por mandar prendê-lo e o mata a golpes de machado na sua cela.
“Perdoa e ganhará o amor
Um outro realce, outra beleza.
É que se punires será o rancor
A tomar mais evidência e mais clareza.
(…)
Perdoa! O que partilhámos me redime.
Nos espaços perfumados de Allah
Apaga os vestígios do meu crime!
Venha da clemência o teu soprar
E tudo enfim desaparecerá.
(…)
Que, se eu morrer, fique contigo
Uma réstia de consolação.
Morrerei mas levarei comigo
A violência toda da minha afeição.
Poema escrito por Ibn ‘Amar
O final do reinado do rei-poeta fica marcado pelas ameaças cristãs ao seu reino, que o levam a pedir apoio ao novo soberano de Marrocos, Yussuf Ibn Tachfin, líder da Dinastia Almorávida e fundador da Cidade de Marraqueche.
A entrada dos Almorávidas na Península é impiedosa, unificando o território sob o seu poder e desterrando Al-Mu’tamid e sua mulher ‘Itimad para Aghmat, nos arredores de Marraqueche, onde terminam os seus dias num miserável cativeiro.
“Grilheta, não sabes que já sou teu?
Porque és dura e sem piedade?
Se esse ferro deste sangue já bebeu
E a minha própria carne já mordeu
Não me roas os ossos por maldade.”
Poema escrito por Al-Mu’tamid
Bibliografia
ALVES, ADALBERTO, “O Meu Coração é Árabe”, Lisboa 1987
ALVES, ADALBERTO, “Al-Mu’tamid Poeta do Destino”, Lisboa 1996
ALVES, ADALBERTO e HADJADJI, HAMDANE, “Ibn ‘Ammar Al-Andalusi, Lisboa 2000
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#1 por Pedro em 24 de Janeiro de 2010 - 16:25
Deixa que recorde aqui, Frederico, um pouco à margem do teu tema, a belíssima “Evocação de Silves”, recordando o lado “algarvio” de Al-Mu’tamid, numa tradução de Adalberto Alves.
EVOCAÇÃO DE SILVES
Saúda, por mim, Abg Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas!
Mulheres níveas e morenas
Atravessavam-me a alma
Como brancas espadas
E lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Nos jogos do amor
Com a da pulseira curva
Igual aos meandros da água
Enquanto o tempo passava..
E me servia de vinho:
O vinho do seu olhar
Às vezes o do seu copo
E outras vezes o da boca.
Tangia cordas de alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas retirava o seu manto
Grácil detalhe mostrando:
Era ramo de salgueiro
Que abria o seu botão
Para ostentar a flor.
#2 por Pedro em 24 de Janeiro de 2010 - 16:30
Acrescento ainda que um dos melhores blogues algarvios http://blogal.blogspot.com Local & Blogal de seu nome, apresenta uma estupenda resenha de poesia luso-árabe que pode ser consultada ao fundo da página inicial do blogue.
#3 por Frederico Mendes Paula em 24 de Janeiro de 2010 - 16:36
Optima escolha pedro. Deixei este de fora e tive pena de não o incluir. Este poema é escrito por Al-Mu’tamid em Sevilha, quando já governava esta cidade, ao seu amigo Ibn ‘Amar que era então governador de Silves. Daí o “saúda por mim Abu Bakr”…já que Ibn ‘Amar se chamava Abu Bakr Muhammad Ibn ‘Amar.
#4 por Frederico Mendes Paula em 24 de Janeiro de 2010 - 16:39
Optima escolha Pedro. Deixei este de fora com muita pena. Este poema foi escrito por Al-Mu’tamid em Sevilha, quando governava a cidade, e dedicado ao seu amigo Ibn ‘Amar, então governador de Silves. Daí o “saúda por mim Abu Bakr”…porque o nome de Ibn ‘Amar era Abu Bakr Muhammad Ibn ‘Amar.
#5 por Pedro em 24 de Janeiro de 2010 - 16:40
Acrescento que uma belíssima resenha de poesia luso-árabe está diponível num dos melhores blogues algarvios, Local & Blogal de seu nome: http://blogal.blogspot.com/
Encontra-la-á ao fundo da página inicial do blogue.
#6 por Luís Moreira em 24 de Janeiro de 2010 - 19:09
Pedro, daria um belo poste…
#7 por Luis Moreira em 24 de Janeiro de 2010 - 23:27
Uma maravilha de descoberta !Serviço Público!