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Poemas com história: Falemos de paisagem
Colocado por XXX Carlos Loures XXX em história, literatura em 21 de Novembro de 2009

Novamente, com este poema de 1968, coloco a questão da forma e do conteúdo, neste caso incidindo sobre o «tema» do «conteúdo». Numa altura em que até poetas de insuspeito cariz democrático poetavam em torno de temas inócuos, transmitidos através de uma linguagem gongórica que, trocando as voltas à polícia e à vigilância censória, as trocavam também aos leitores que não fossem «do meio», tornava-se necessário, com todos os riscos que isso envolvia, falar dos problemas concretos que nos afectavam – a fome, a miséria, a guerra colonial, a emigração, a falta de liberdade – e deixar essas temáticas mais elevadas para quando o essencial tivesse sido conquistado. Exaltar a beleza da paisagem era inútil, se o poeta se esquecesse de que nessa paisagem maravilhosa havia pessoas trabalhando de sol a sol a troco de soldos de miséria.
No seu livro «Remol», publicado em 1970, o poeta galego Manuel María publicou um poema de sentido muito semelhante – «A paisaxe é fermosa», na minha opinião com uma qualidade poética muito superior à do meu poema, mas com um sentido geral muito semelhante. Não se pondo sequer a hipótese de ele se ter inspirado no meu tema, a coincidência leva-nos à conclusão de que, submetidos a condições semelhantes, os homens, neste caso os escritores, reagem de forma também similar. Este meu poema foi publicado em 1968 no livro «A Voz e o Sangue». Foi lido em numerosas sessões pelo actor e declamador Armando Caldas ao qual aproveito para agradecer a atenção que, nesses tempos difíceis, dispensou à minha poesia.
Falemos de paisagem
Mas, como podíamos cantar
Com o pé estrangeiro sobre o coração?
Salvatore Quasímodo
(Giorno dopo giorno)
Como queres, amigo, que haja flores nos meus versos,
como queres grinaldas e primavera no meu poema?
Em meu redor há homens humilhados, crianças
descalças e com fome, mulheres grávidas
trabalhando a terra. Como queres, amigo,
que eu veja esse tal céu azul de que tu falas,
esse sol eterno, que cante a beleza da paisagem,
se o sofrimento humano altera a cor das coisas?
É cinzenta a paisagem, é cor de cinza o céu,
por isso os meus poemas são cinzentos e sem beleza
(acaso tem beleza a fome?).
Sim, eu sei, poesia não é bem economia política
e humildemente sei que após os meus versos
tudo continuará cinzento – o dealbar
não será erigido pelos meus poemas
nem por quaisquer outros – mas sei também
que a poesia deve ser a verdade do poeta,
a sua maneira de explicar o mundo
e de o tentar transformar. Por isso digo
– um de nós está enganado e creio bem que és tu,
pois me pedes uma poesia que não pode nascer
de um homem que queira ser fiel ao seu povo.
Quando o céu for azul, prometo-te, amigo,
os meus versos o dirão e o meu poema será lírio,
deixará esta cor de lama e de sangue.
Quando o céu for azul, amigo meu
– antes, não!











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